A interpretação bíblica – A Reforma

Durante a Reforma, a Bíblia passou a ser a única fonte legítima a nortear a fé e a prática. Os reformadores basearam-se no método literal da escola antioquina e dos vitorinos. A Reforma foi uma época de distúrbios sociais e eclesiásticos, mas, como destacou Ramm, foi essencialmente uma reforma hermenêutica, uma reforma da maneira de ver a Bíblia.
• A Renascença, que iniciou no século XIV na Itália e invadiu o século XVII, consistiu no reavivamento do interesse pela literatura clássica, até mesmo pelo hebraico e pelo grego. Johannes Reuchlin escreveu diversos livros sobre a gramática hebraica, entre eles Interpretação Gramatical dos Sete Salmos Penitenciais. Desidério Erasmo, humanista proeminente da Renascença, revisou e publicou, em 1516, a primeira edição do Novo Testamento grego. Foi também ele que escreveu e publicou Anotações sobre o Novo Testamento, além de paráfrases de todo o Novo Testamento, com exceção de Apocalipse.

“Essas publicações inauguraram uma nova era de aprendizado bíblico e muito contribuíram para suplantar o escolasticismo das eras anteriores com melhores métodos de estudo teológico”. Martinho Lutero (1438-1546) escreveu: “Quando monge, eu era perito em alegorias. Eu alegorizava tudo. Mas, depois de fazer preleções sobre a Epístola aos Romanos, passei a conhecer a Cristo. Foi assim que percebi que ele não é nenhuma alegoria e aprendi a saber o que Cristo realmente é”. Lutero denunciou energicamente o método alegórico de interpretação das Escrituras. “Alegorias são especulações vãs, são como que a escória das Escrituras Sagradas. “Até a imundícia vale mais que as alegorias de Orígenes.” “Alegorizar é manipular o texto bíblico.” “A alegorização pode degenerar em mera fraude”.

“As alegorias são coisas estranhas, absurdas, fantasiosas e obsoletas que não valem um centavo”. Lutero rejeitou o sentido quádruplo das Escrituras, que predominara na Idade Média, e ressaltou o sentido literal (sensus literalis) da Bíblia. Ele disse que as Escrituras “devem ser mantidas em seu significado mais simples possível e entendidas de acordo com seu sentido gramatical e literal, a menos que o contexto claramente o impeça” (Luther’s Works, 6:509). A importância que dava ao aspecto literal levou-o a elevar os idiomas originais das Escrituras. “Sem os idiomas, não preservaremos o evangelho por muito tempo. Eles são a bainha onde a espada do Espírito fica guardada” (Luther’s Works, 4:114-5). Mas o estudante da Bíblia, declarou Lutero, precisa ser mais do que um filólogo. Precisa-ser iluminado pelo Espírito Santo. Além disso, a abordagem gramatical e histórica não é um fim em si mesma; seu objetivo é conduzir-nos a Cristo.

À semelhança de Agostinho, Lutero afirma, em sua obra Analogia Scripturae [Analogia da Fé ] que as passagens obscuras devem ser entendidas com base nas de sentido nítido. “O texto bíblico interpreta a si próprio”, costumava dizer. “Esse é o verdadeiro método de interpretação, que compara passagem bíblica com passagem bíblica da forma certa, adequada” (Luther’s Works, 3:334). Na opinião de Lutero, qualquer cristão devoto pode entender a Bíblia, “Não existe na terra livro mais translúcido que as Sagradas Escrituras” (exposição do salmo 37). Com tal ênfase, ele estava contrapondo-se à dependência que as pessoas comuns tinham da Igreja Católica Romana. Embora Lutero fosse inimigo ferrenho da alegorização das Escrituras, vez por outra ele também empregava esse estilo. Ele afirmou, por exemplo, que a arca de Noé era uma alegoria da igreja.

Para ele, a interpretação bíblica deve estar centrada em Cristo. Em vez de alegorizar o Antigo Testamento, com frequência Lutero via nele a figura de Cristo, muitas vezes além do que legitimamente permite uma interpretação correta. O fato de Lutero ter rejeitado a alegorização das Escrituras causou uma revolução. O estilo alegórico estivera arraigado na igreja havia séculos. Embora tivesse sido fruto da tentativa de solucionar a questão dos antro- pomorfismos e supostas imoralidades da Bíblia, esse estilo continha inúmeros problemas. A alegorização passa a ser arbitrária. E um processo que carece de objetividade e que não refreia a imaginação. Ela encobre o verdadeiro sentido dos textos bíblicos. Sua mensagem não se impõe, pois alguém pode dizer que certa passagem ensina determinada verdade em termos alegóricos, ao passo que outra pessoa é capaz de enxergar um significado completamente diferente.

É uma forma de despojar as Escrituras de qualquer autoridade. “A Bíblia analisada pelo prisma alegórico toma-se massa de modelar nas mãos do exegeta.” A alegorização também pode provocar orgulho quando alguns procuram enxergar nas Escrituras o que pensam ser um sentido espiritual, místico, mais “profundo” do que aquele visto pelos outros. Mas o apóstolo Paulo não fez uso da alegorização? Ele escreveu, em Gálatas 4.24-26: “Estas cousas são alegóricas: porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Hagar. Ora, Hagar é o monte Sinai na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe…”. Existe, porém; uma diferença entre a interpretação de alegorias assim chamados na Bíblia e a alegorização da maior parte das Escrituras.

Quando Paulo utiliza alegorias em Gálatas 4, ele deixa claro o que está fazendo, como acontece com os outros autores bíblicos que empregaram esse estilo. O apóstolo escreveu literalmente: “Estas cousas são alegóricas…”. Ele empregou o verbo allegoreo, que significa “dar a entender um sentido diferente do que é expresso pelas palavras”. É um complemento, não um substituto do sentido claro, gramatical das palavras. A tabela abaixo assinala as diferenças entre o método alegórico de interpretação, que predominou durante séculos na igreja, e a forma como Paulo utiliza uma alegoria.

O método alegórico

1. O sentido histórico é irrelevante (se é que é verdadeiro).

2. O significado mais “profundo” é o significado verdadeiro

3. O significado mais “profundo” é a “exposição” do que está registrado

4. Tudo no Antigo Testamento pode ser alegorizado

A alegorização de Paulo

1.  O sentido histórico é relevante e verdadeiro.

2. Fazem-se paralelos para chegar a uma conclusão.

3. Paulo não disse que a alegoria era a “exposição” de Gênesis 16.

4. Quando Paulo utilizou o estilo alegórico, ele informou que estava alegorizando.

O apóstolo utilizou a alegorização como forma de ilustração ou analogia, para destacar que certos fatos relativos a Hagar estão associados aos não-cristãos e que certos fatos relativos a Sara estão associados aos cristãos. Philip Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero, era profundo conhecedor do hebraico e do grego. Esse conhecimento, aliado a “seu caráter judicioso e à prudência de seu método de trabalho, possibilitou que ocupasse uma posição de relevo na exegese bíblica”. Apesar de às vezes recair na alegorização, no cômputo geral ele também seguia o método gramatical e histórico. João Calvino (1509-1564) é chamado de “um dos maiores intérpretes da Bíblia”. Como Lutero, Calvino rejeitava as interpretações alegóricas. Declarou que eram “jogos fúteis” e que Orígenes e muitos outros eram culpados de “desfigurar as Escrituras em todos os sentidos possíveis, destituindo-as do sentido original”.

Calvino ressaltava a natureza cristológica dos textos bíblicos, o método gramático e histórico, a exegese em vez da eisegese (deixar o texto falar por si mesmo, e não ler o que ele não diz), o ministério esclarecedor do Espírito Santo e um tratamento equilibrado da tipologia. Da mesma forma que Lutero, Calvino frisava que “o texto bíblico interpreta a si mesmo” . Assim sendo, deu extrema importância à exegese gramatical e à necessidade de examinar o contexto de cada passagem. Embora seja mais famoso por sua teologia (delineada nos dois volumes da obra Institutas da Religião Cristã), ele fez comentários sobre todos os livros da Bíblia, com exceção de 14 do Antigo Testamento e três do Novo. São eles: Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, 2 e 3 João e Apocalipse.

No prefácio de seu comentário sobre Romanos, Calvino escreveu que “a primeira preocupação do intérprete é deixar o autor dizer o que realmente diz, em vez de atribuir-lhe o que achamos que ele deveria dizer”. Calvino conhecia profundamente as Escrituras, o que fica evidente no fato de que suas Institutas continham 1 755 citações do Antigo Testamento e 3 098 do Novo. Ulrich Zuínglio (1484-1531) foi o cabeça da Reforma em Zurique, enquanto Calvino o foi em Genebra. Tendo cortado os laços com o catolicismo romano, pregava sermões expositivos, muitos dos quais sobre os evangelhos. Ele repudiava a autoridade da igreja e escreveu que “todos aqueles que afirmam que o evangelho de nada vale sem a aprovação da igreja estão incorrendo num erro e desacreditando Deus” (Sessenta e Sete Teses). Zuínglio salientava a importância de interpretar passagens bíblicas tendo em mente seus contextos.

Remover um texto de seu contexto “é como separar uma flor da raiz”. Ao abordar o papel do ministério esclarecedor do Espírito Santo, ele declarou que “a certeza vem pelo poder e pela nitidez da atuação criadora de Deus e do Espírito Santo”. William Tyndale (c. 1494-1536) é famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês, em 1525. Ele também traduziu o Pentateuco e o livro de Jonas. Tyndale era outro que defendia o sentido literal da Bíblia. “As Escrituras têm apenas um sentido, que é o literal.” O movimento anabatista começou em 1525 em Zurique, na Suíça, com os seguidores de Zuínglio. Estes achavam que ele não cortara de vez os laços com o catolicismo no tocante às questões do controle da igreja por parte do Estado e do batismo de crianças. Os três “pais fundadores” do movimento anabatista foram Conrad Grebel, Felix Mantz e Georg Blaurock. Dentre outros líderes famosos figuram: Balthasar Hubmaier, Michael Sattler, Pilgram Marpeck e Menno Simons.

Os menonitas de hoje recebem esse nome graças a Menno Simons. Os anabatistas acreditavam que, se uma pessoa tivesse sido batizada quando bebê pela igreja reformada (zuingliana) e depois de adulta aceitasse Cristo, deveria ser rebatizada. Foi por isso que seus inimigos apelidaram-nos de “anabatistas”, que significa “rebatizadores”, Os primeiros líderes na Suíça autodenominavam-se “irmãos suíços”. Eles também ressaltavam a importância de cada um interpretar as Escrituras com o auxílio do Espírito Santo, a primazia do Novo Testamento sobre o Antigo, a separação entre a igreja e o Estado e a disciplina e a disposição fiéis de sofrer pelo nome de Cristo. Preocupavam-se intensamente com a necessidade de uma igreja neotestamentária pura, uma lealdade à Bíblia e uma vida de humildade, pureza, disciplina e obediência a Cristo. Em resposta à Reforma protestante, a Igreja Católica Romana convocou o Concílio de Trento, que se reuniu várias vezes de 1545 a 1563.

As reformas empreendidas na Igreja Católica ficaram conhecidas como Contra-Reforma. Esse Concílio declarou que a Bíblia não é a autoridade suprema, mas que a verdade encontra-se “em livros escritos e em tradições não-escritas”. Essas tradições incluem os país da igreja da antiguidade e os líderes da igreja de hoje. O Concílio afirmou ainda que uma interpretação precisa só se toma possível por meio da Igreja Católica Romana — a fornecedora e guardiã da Bíblia — e não mediante indivíduos. Nele se registraram as seguintes palavras: “Ninguém, apoiando-se na própria capacidade, poderá, ‘nas questões de fé e de palavras concernentes à edificação da doutrina cristã, distorcendo as Escrituras Sagradas para seu próprio sentido, presumir que as interpretará em conformidade com o que a Santa Madre Igreja […] sustentou e sustenta; nem mesmo em contrariedade ao que os pais estabeleceram unanimemente ’ ”.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 51-58