Escavações que nos ensinaram a ler

Os exploradores pioneiros no contato com o mundo bíblico ficaram maravilhados ao contemplar pela primeira vez as ruínas monumentais do Egito e da Mesopotâmia. Procedendo aos registros das antigas cidades, desenhos das maravilhas rochosas, eles voltaram para casa a fim de extasiar uma platéia ávida por novidades. Todos os que viam aquele outro mundo revelado nas ilustrações logo ficavam curiosos acerca dos misteriosos sinais que cobriam as maravilhosas estruturas. Apesar de os pesquisadores saberem que aqueles símbolos peculiares representavam a história de civilizações desaparecidas, a maioria deles estava convicta de que as chaves para interpretá-los também se haviam perdido. Ali estavam as enigmáticas línguas do Egito e da Mesopotâmia, as duas grandes potências do passado. Como os historiadores ansiavam por decifrar os seus segredos! Mas ninguém possuía as chaves. Ironicamente, as chaves apareceram nas próprias pedras, na proporção dos achados, que se somavam. Duas dessas descobertas literalmente nos ensinaram como ler as línguas perdidas e, como resultado, revelaram novas maravilhas ao mundo. Foram elas a pedra Roseta e o rochedo de Behistun, contadas entre as primeiras grandes descobertas arqueológicas. Nesse artigo falaremos sobre a pedra Roseta.

A pedra Roseta — chave para os hieróglifos egípcios

Os hieróglifos (a antiga escrita egípcia, sendo o termo derivado de duas palavras gregas: hieros, “sagrado”, e glifo, “gravar”) receberam uma aura especial de mistério por causa dos artistas europeus, que romantizaram em suas obras as ruínas de Gizé e Tebas. Para os encantados europeus, os símbolos que as cobriam tornaram-se tanto motivos ornamentais quanto eram considerados repositórios de segredos conhecidos somente dos faraós.A maioria dos eruditos da época concordava que aqueles sinais carregavam um significado místico para os egípcios, mas também imaginavam ser possível decifrá-los e assim recuperar muita coisa daquela cultura perdida. Porém o significado dos hieroglifos permaneceu-lhes obscuro, tão indefinido quanto uma nuvem de chuva sobre o ermo. Foi então que, em 1798, soldados sob o comando de Napoleão Bonaparte, que junto com uma unidade de cientistas franceses invadira o Egito no ano anterior, começaram a reunir um grande número de artefatos egípcios recém descobertos.

Como seria demonstrado mais tarde, os objetos estavam destinados a colecionadores somente, e não à conservação. Um ano depois, os tesouros caíram nas mãos dos ingleses, que seguiram a esquadra francesa e expulsaram o exército de Bonaparte do Egito. No meio de uma nova coleção de antiguidades confiscadas, enviada pelos ingleses para o museu nacional em Londres, constava um grande bloco de pedra de basalto gravado de cima a baixo com antigos caracteres. A pedra foi encontrada por um oficial do exército francês, o tenente P. F. X. Bouchard, que fazia reconhecimento na área próxima ao povoado de Roseta, à margem esquerda do Nilo. Com cerca de 7 metros de altura, quase 1 metro e meio de largura e 33 centímetros de espessura, a pedra pesava aproximadamente 760 quilos! Denominada apropriadamente Pedra Roseta, logo despertou interesse, quando se observou que a escrita apresentava diferentes tipos de caracteres. Estudos posteriores revelaram serem textos paralelos, cada um registrando o mesmo relato.

O texto no topo da pedra estava escrito em hieroglifos, o do meio parecia uma forma cursiva dos mesmos hieroglifos (hoje chamada escrita demótica) e o da parte inferior era grego coiné. Sendo esse grego (o mesmo do Novo Testamento) de fácil leitura para os eruditos, criou-se a expectativa de que alguém pudesse trabalhar do conhecido para o desconhecido. Comparando primeiro as palavras gregas facilmente inteligíveis com o texto demótico (que pensava-se ser legível), talvez alguma luz pudesse ser lançada sobre os enigmáticos hieroglifos (que pensava-se serem somente simbólicos). À medida que o texto grego da Pedra Roseta era traduzido, soube-se que a pedra era uma esteia comemorativa que já estivera em um templo egípcio. Ela registrava algum decreto publicado de Mênfis (a capital egípcia antiga) em 196 a.C. exibindo os triunfos do Rei Ptolomeu V Epifânio. A inclusão deste nome (o único nome real preservado na seção de hieroglifos da pedra) se mostraria essencial para finalmente quebrar o código de hieroglifos.

A primeira tentativa bem-sucedida de ler o texto egípcio foi feita por Thomas Young (mais conhecido como o autor da badalada teoria da luz). Ele identificou corretamente um grupo recorrente de hieróglifos escritos com um círculo (conhecido como cartucho) com o nome do rei Ptolomeu. Agora que sabia-se que nomes estrangeiros eram escritos somente com estes hieróglifos, o significado dos sinais haveria de ser entendido pelos eruditos. Ironicamente, um jovem francês chamado Jean-François Champollion entrou no drama da decifração. Linguista bem dotado, Champollion energicamente aplicou-se à tarefa em questão. Ele comparou o hieróglifo de Young para “Ptolomeu” na Pedra Roseta com um obelisco que acabara de ser descoberto (1819) de um templo egípcio antigo perto de Aswan, que continha os nomes de Ptolomeu e Cleópatra em grego.

Ele foi capaz de isolar o cartucho para Cleópatra e, partindo daí, decifrar outros nomes reais. Finalmente, em 1822, com a idade de 32 anos, ele anunciou triunfantemente que havia resolvido o quebra-cabeça dos hieróglifos. Para a surpresa de muitos eruditos, ele demonstrou que os hieróglifos não eram apenas símbolos, mas sinais com valor fonético — eles formavam uma linguagem legível! Por isso, em função da descoberta da Pedra Roseta, os segredos ocultos da linguagem egípcia e através dela, a história do Egito antigo, religião e cultura foram abertas ao mundo.

Fonte: Arqueologia- Livro: Arqueologia Bíblia-

Autor: Randall Price, Editora: CPAD,

Pags: 41-44