A Arqueologia e a Arca

A presença poderosa da Arca da Aliança serviu para dividir o rio Jordão, derrubar os muros de Jerico, destruir as cidades dos filisteus e matar israelitas irreverentes. Com esse tipo de história, a arca foi destinada a se tornar o objeto central dos roteiros escritos para filmes hollywoodianos. Lamentavelmente, isto fez com que algumas pessoas consignassem este artefato antigo ao campo da superstição sagrada. Além disso, há estudiosos que vêem a arca como simples criação literária, uma peça de ficção religiosa projetada para dramas teológicos. Outros afirmam que os exércitos de outras culturas antigas do Oriente Próximo levavam imagens dos seus deuses para as batalhas, e, por isso, são de opinião de que os israelitas tomaram emprestado ou compartilharam esta mitologia regional, tendo sua própria versão desta prática pagã (a arca) para situações difíceis. Pelo contrário, a narrativa bíblica demonstra a singularidade teológica da arca em relação a outras culturas. Ademais, os arqueólogos têm encontrado artefatos que são paralelos à arca, gerando credibilidade à possibilidade de sua existência. A arqueologia também conseguiu fazer uma descrição da arca que é compatível com os dados bíblicos. Primeiramente, vamos considerar a descrição bíblica da arca e, depois, examinaremos exemplos arqueológicos que ilustram seu desígnio.

A descrição da Arca

A Arca da Aliança (ou Arca do Testemunho) tinha a forma de caixa retangular, medindo aproximadamente 1,20 metros de comprimento, 60 centímetros de altura e 60 centímetros de largura. Este design está indicado pela palavra hebraica aron, que significa “caixa” ou “cofre”. A palavra portuguesa arca vem do latim e também significa “cofre”. O miolo da arca era feito de madeira de acácia (ou de cetim), o que atesta sua origem desértica, visto que árvores de acácia são nativas da região do Sinai. Esta madeira tem tamanha durabilidade que na versão grega do Antigo Testamento, chamada Septuaginta, a palavra é traduzida por “incorruptível” ou “não deteriorável”. Justaposta a esta madeira imperecível havia uma camada de ouro, aplicada para proteção prática e simbolismo religioso. Segundo certa fonte, a madeira era dourada (ou seja, folhada a ouro).

Outras fontes informam que o texto hebraico indica que havia caixas finas de ouro no interior e no exterior do repositório da madeira original, formando algo como uma “caixa chinesa”. Desta forma, a arca pode ter sido um recipiente de três camadas (uma caixa de ouro, mais uma caixa de madeira, mais uma caixa de ouro). A porção superior da arca tinha um tabuão de ouro de construção especial chamado “propiciatório” (em hebraico kapporet, “cobertura”). Este tabuão servia como tampa plana para a caixa e encaixava-se numa beira ou “coroa” de ouro que circundava o topo dos quatro lados da caixa exterior e ajudava a manter a tampa no lugar. Esta característica impedia que a tampa caísse acidentalmente e expusesse o conteúdo da arca quando transportada. Em cima da tampa de ouro havia um par de seres alados de nome “querubim”. Tudo isso formava uma peça maciça de ouro. Será que esta é uma descrição fidedigna de um verdadeiro objeto da antiguidade? A comparação com relíquias semelhantes que foram desenterradas no antigo Oriente Próximo nos ajudará a encontrar a resposta.

Paralelos arqueológicos à Arca

O vocábulo hebraico para “arca” (‘aron) também era usado para os caixões egípcios (Gn 50.26), e alguns dos nossos melhores exemplares de objetos na forma de arca chegam-nos do Egito. Por exemplo, em Luxor, no Vale dos Reis, os arqueólogos descobriram a tumba do jovem faraó egípcio Tutancâmon (1343- 1325 a.C.). Os objetos de sua tumba estão em exibição permanente no Museu do Cairo, no Egito. Nesta tumba foi encontrada uma arca no formato de cofre feito de cedro, com aproximadamente 81 centímetros de comprimento, com varapaus para transporte que deslizam em anéis de metal presos embaixo. Também foi achado um relicário maior que consiste numa caixa de madeira retangular revestida de ouro. A caixa tinha varapaus para transporte e uma imagem do deus Anúbis montado em cima. Além disso, esfinges egípcias, aparecendo normalmente em pares, adornavam muitos dos objetos relativos a ritos — em certo caso, outra “arca”.

Contudo, nesta arca em particular as esfinges estão gravadas no lado. Muitas culturas do Oriente Próximo adotaram o conceito de querubins em arca com atributos humanos e animais para representar os poderosos guardiães dos deuses. Exemplos de esfinges, touros alados e grifos surgem da Assíria, Babilônia, Grécia e Fenícia, como também de Canaã. Um exemplar de marfim especialmente bonito, dos séculos VIII e IX a.C., foi achado no palácio do governador assírio Hadatu, em Aslan Tash, norte da Síria. Estes símbolos aparecem habitualmente como combinação de criaturas. Por exemplo, no Egito a esfinge é um homem leao, enquanto que na Babilônia a figura primária é um homem boi. Em Israel, foram descobertas figuras de querubins de marfim na forma de esfinge nas ruínas que outrora faziam parte do palácio do rei Acabe, em Samaria. É difícil determinar em que grau estas esfinges israelitas mais recentes eram representação precisa do querubim da arca. As imagens de seres alados em culturas de comparação do Oriente Próximo foram influenciadas pela mitologia pagã local, mas os querubins sobre a Arca da Aliança, de acordo com a tradição judaica, eram inigualáveis na forma.

Fonte:

M. Blaiklock, subverbete “Ark of the Covenant”, New International Dictionary of Biblical Archaeology, E. M. Blaiklock e R. K. Harrison, editores (Grand Rapids: Zondervan, 1983), p. 68.

Cf. Yoma 72b; Rashi; Ralbag. 6. Vide Alan Millard, “Tutankhamen, the Tabernacle and the Ark of the Covenant”, Bible and Spade, volume 7, n.° 2 (Primavera de 1994), pp. 49-51.

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