Os gêneros dos Evangelhos e do livro de Atos

Tudo o que dissemos, até agora, pressupõe que os quatro evangelistas pensaram estar escrevendo história e biografia relativamente diretas. Isto é, certamente o que os Evangelhos e o livro de Atos parecem estar apresentando, e é a maneira dominante como os leitores interpretaram estas obras ao longo da História da Igreja. Mas será correta essa pressuposição? Na literatura do mundo mediterrâneo antigo, quais são os paralelos mais próximos a estes documentos, e o que podemos aprender das tentativas de rotular a sua forma ou o seu gênero literário? Vários esforços foram feitos pela crítica bíblica moderna, para declarar estas obras como predominantemente fictícias, com base em supostos paralelismos com mito, lenda, romance e gêneros semelhantes. Durante grande parte do século XX, uma grande parcela dos críticos declarou que o seu gênero era sui generis (isto é, único, singular, ou, literalmente, o seu “próprio gênero”).  Mas um grande número de estudos especializados recentes reconhece que os mais próximos paralelos são encontrados entre as histórias e biografias relativamente confiáveis, de autores como o historiador judeu Josefo, e os historiadores gregos Heródoto e Tucídides.

Particularmente instrutivos são os prefácios aos livros de Lucas e Atos (Lc 1.1-4; At 1.1,2), que não somente são paralelos aos prefácios das obras destes historiadores não cristãos, mas também descrevem a confiança de Lucas em fontes anteriores, entrevistas com testemunhas oculares e tradição oral confiável. Embora o esforço para provar que Lucas era médico, com base no uso de um vocabulário supostamente médico, tenha sido abandonado há quase um século, Loveday Alexander demonstrou que os mais próximos paralelos à linguagem de Lucas aparecem em “prosa técnica” greco-romana, o que ela define, em um escopo amplo, como literatura “científica”, incluindo tratados sobre tópicos como medicina, filosofia, matemática, engenharia e retórica. Estes paralelos novamente distanciam os autores bíblicos da literatura mais abertamente fictícia dos seus dias e inspiram confiança de que a preocupação com a exatidão era uma das principais características da composição dos Evangelhos e do livro de Atos.

O Evangelho de João obviamente é mais diferente dos Sinóticos do que semelhante a eles, nos detalhes que apresenta sobre a vida de Jesus, incluindo o estilo linguístico das palavras de Jesus. Não é de surpreender que os acadêmicos tenham questionado se o Quarto Evangelho poderia ser identificado com o mesmo gênero, e prova ser tão exato como os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. A declaração de intenções do Quarto Evangelho aparece em João 20.31: “Estes [sinais], porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Esta declaração poderia sugerir que a vontade de João em promover a fé cristã teria sobrepujado o seu interesse pela exatidão histórica. Mas alguém poderia perguntar se a literatura abundantemente fictícia teria promovido tal fé, quando outros, no mundo de João, poderiam ter menosprezado a sua narrativa. Em outras passagens, fica claro que um dos principais interesses de João é a “verdade” (veja, especialmente, 19.35; 21.24).

É difícil imaginar que ele tivesse pensado que uma narrativa grandemente falsificada iria ajudar as pessoas a crer na verdade, em qualquer nível, histórico ou teológico. A razão por que João inclui episódios tão diferentes dos Evangelhos Sinóticos é provavelmente porque reconhecia que os seus ouvintes (as igrejas de Efeso e redondezas) já conheciam uma boa porção daquele material, pelo seu ministério de ensinamento anterior entre eles. O estilo característico de João é claramente o seu próprio. Mas a razão que ele apresenta para se sentir livre para escrever sobre os ensinamentos de Jesus nas suas próprias palavras, mais do que Mateus, Marcos e Lucas — especificamente, a inspiração do Espírito Santo (Jo 14.26) — é uma razão fundamental para crer que João, apesar disso, preservou com exatidão a essência dos ensinamentos de Jesus.

Em um espectro de obras antigas, que vão de crônicas altamente objetivas da história a obras de total ficção, João talvez caia ligeiramente mais além do primeiro tipo do que os Sinóticos, mas os três primeiros Evangelhos ainda continuam sendo os paralelos literários mais próximos a João na antiguidade.” O que frequentemente confunde os leitores modernos é o fato de que as convenções contemporâneas para escrever história e biografia normalmente requerem padrões de precisão que as pessoas ainda não tinham sequer inventado, e muito menos começado a seguir no mundo antigo. Em culturas que ainda teriam que criar algum símbolo que correspondesse as nossas aspas, ou sentir a necessidade de fazer isso, era perfeitamente apropriado expressar com as próprias palavras as de outra pessoa, com a condição de ser fiel à “essência’ ou intenção do orador original.

Era considerado não somente apropriado, mas também necessário abreviar ou resumir as narrativas longas, inserir os próprios comentários no texto (como observações entre parêntesis, em um mundo que não tinha símbolos para parêntesis) e ser altamente seletivos quanto ao que era narrado sobre uma determinada pessoa ou evento. Hoje, nós julgaríamos uma biografia deficiente se ela não narrasse algo sobre o nascimento e a educação de um indivíduo, ou se passasse praticamente metade do seu tempo descrevendo os eventos imediatamente anteriores à morte deste indivíduo. O mesmo seria verdadeiro se o texto rearranjasse os eventos fundamentais da vida de uma pessoa por assuntos, em vez de seguir uma cronologia estrita. Mas quando Marcos e João fazem exatamente estas coisas, estão seguindo bons precedentes mediterrâneos antigos. A obra Lives of the Philosopliers, compilada por Diógenes Laércio no início do século III frequentemente é muito parecida com os Evangelhos canônicos neste aspecto.

Quando alguém recorda que os cristãos acreditavam que o aspecto mais significativo da vida de Jesus foi a sua morte (pelos pecados do mundo), a sua escolha de ênfases faz sentido. Com respeito ao livro de Atos, muitos estudos acadêmicos se dedicaram aos seus sermões. Por um lado, os críticos se queixam, às vezes, de que a mensagem central de cada sermão é a mesma, independentemente de quem o profira. Lucas — alegam eles — deve ter criado um protótipo “tamanho único” e o atribuído indiscriminadamente a cada pregador cristão. Por outro lado, os críticos também observam a extraordinária variação de detalhes específicos de um sermão a outro, e novamente atribuem esta variedade à criação de Lucas. Certamente o mesmo orador, por exemplo, Paulo, não teria variado tanto as suas mensagens de uma ocasião para outra.

Na verdade, estas duas críticas se cancelam mutuamente! O que a combinação de unidade e diversidade na pregação do livro de Atos demonstra é quão perfeitamente cada mensagem é expressa sob medida para o seu público particular. Paulo e Pedro podem se parecer quando falam para o mesmo tipo de público, como no templo judaico ou nas sinagogas (conforme, por exemplo, At 3.12-26 com 13.16-48). Mas as palavras de Paulo soam muito diferentes quando ele fala aos pagãos em Listra, para quem o Antigo Testamento e o cumprimento das esperanças dos judeus não significavam nada (14.15-18). Mas os pontos comuns essenciais — a importância da ressurreição de Jesus e a necessidade do arrependimento dos pecados para receber perdão, e o Espírito Santo residente em cada cristão — mostram que há uma unidade na antiga mensagem cristã que transcende qualquer contexto específico.

Livro: Questões cruciais do Novo Testamento

Autor: Craig L. Blomberg

Editora: CPAD

 

pags 24-27

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