A cristologia bíblica emerge como a espinha dorsal da pregação protestante, refletindo um entendimento profundo e multifacetado da pessoa e obra de Cristo. Desde os mais antigos textos da Escritura até suas manifestações contemporâneas na vida da igreja, a cristologia não é apenas um aspecto da fé, mas seu cerne vital. O cristão é chamado a discernir em Cristo a plenitude da revelação divina, sendo Ele o logos que se fez carne (João 1:14). Compreender a cristologia bíblica é, portanto, uma tarefa essencial para qualquer pregador, que deve articular fielmente as verdades fundacionais que permeiam a Escritura.
No Antigo Testamento, a expectativa messiânica se desdobra com nuances ricas que prenunciam a vinda do Cristo. O termo hebraico מָשִׁיחַ (māšîaḥ), que significa “ungido”, revela a vocação de personagens como Davi que, embora apreciáveis em sua liderança, são prefigurações do verdadeiro Rei que haveria de vir (Salmo 2). A promessa divina feita em Gênesis 3:15, com o protoevangelho que anuncia a derrota do mal através da semente da mulher, lança luz sobre a narrativa messiânica que permeia cada livro do Antigo Testamento. É nesse contexto que a figura do Suffering Servant, em Isaías 53, se torna vital, descrevendo um sofrimento redentor que culmina em esperança e salvação, um quadro que se cumprirá em Jesus de Nazaré.
Jesus, enquanto o cumprimento do anseio messiânico, é descrito por João como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). A teologia da substituição é um dos pilares da cristologia, onde Ele se torna o sacrifício perfeito, tipificado em milhares de anos de práticas sacrificiais na tradição judaica. O grego ἱλαστήριον (hilastērion), traduzido como “propiciação”, indica a reconciliação que se realiza através de Seu sangue, um preço que redime a humanidade. O pastor tem o chamado de proclamar essa verdade, uma urdidura que entrelaça a lei e o evangelho, sem a qual a mensagem da cruz perde seu impacto transformador.
Na narrativa do Novo Testamento, a metodologia do evangelho é clara: Cristo é apresentado não apenas como o cumprimento da profecia, mas também como a revelação do caráter de Deus. O autor de Hebreus assim o sintetiza quando diz que “Ele é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser” (Hebreus 1:3). A palavra grega χαρακτήρ (charaktēr), que significa “caráter” ou “impressão”, aponta para a realidade de que em Cristo vemos a plenitude da divindade habitando corporeamente (Colossenses 2:9). Essa conexão íntima entre o Filho e o Pai fortalece a urgência da mensagem cristã — a salvação não é uma proposta, mas uma oferta baseada na revelação de Deus em Cristo.
A ressurreição de Jesus, um evento central na cristologia bíblica, torna-se o clímax do plano redentivo. O apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 15:17, argumenta que, se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé. A palavra ἀνάστασις (anástasis) reflete não apenas uma volta à vida, mas uma transição radical da morte para a vida eterna, conferindo esperança aos crentes e reafirmando a vitória sobre o pecado e a morte. A proclamação dessa verdade é essencial na pregação protestante, pois ela assegura que a vitória de Cristo é também a vitória do povo de Deus. A comunidade da fé é chamada a viver em resposta a esta verdade, prometendo uma gloriosa ressurreição para todos que nele creem.
O papel do Espírito Santo na cristologia bíblica deve ser compreendido como a continuidade da obra de Cristo na vida dos crentes. O Espírito, que é o Paracleto (do grego παράκλητος – paráklētos, “aquele que é chamado para ajudar”), atua na convicção do pecado, justiça e juízo (João 16:8). Ele capacita a igreja para a missão, à luz da verdade plena em Cristo. A Escritura nos ensina que a presença do Espírito Santos garante que os fiéis não apenas conheçam a verdade, mas também a vivam, refletindo o caráter de Cristo. Portanto, a vivência do cristão implica numa conformidade com a imagem de Cristo, sendo chamado a produzir os frutos que evidenciam essa transformação.
A importação do aspecto eclesiológico em relação à cristologia não pode ser subestimada. A igreja, enquanto corpo de Cristo (1 Coríntios 12:27), carrega a responsabilidade de manter viva a testemunha do evangelho. Cada membro possui uma função específica para edificação da comunidade, e assim, a pregação deve ser centrada não apenas na doutrina, mas também em suas implicações práticas para a vida da igreja. O amor que flui da natureza de Deus deve ser o motor das interações comunitárias, refletindo o amor que Cristo demonstrou em sua vida e ministério. Essa dinâmica de amor e serviço é o que deve caracterizar a comunidade cristã, fazendo ecoar a mensagem de Cristo na população ao seu redor, gerando um impacto transformador.
Neste sentido, a cristologia bíblica como centro da pregação protestante não trata apenas de um conhecimento teórico sobre Jesus, mas se traduz em ações concretas que incluem a prática da sua presença na vida dos crentes. As decisões, escolhas e interação do crente com o mundo devem estar enraizadas em um entendimento robusto de quem Jesus é e do que Ele fez. Por isso, a pregação que não centraliza Cristo, que não reflete a Sua obra redentora e transformadora nas vidas, não cumpre seu papel. A centralidade de Cristo desdobra-se, assim, em uma vida vivida em obediência e gratidão, em um processo contínuo de santificação que tem como objetivo a glória de Deus no mundo.
Portanto, ao considerar a cristologia bíblica como centro da pregação protestante, a ênfase nos atributos de Cristo, sua vida, morte e ressurreição não pode ser dissociada do impacto transformador que isso tem na vida da comunidade de fé e nos relacionamentos interpessoais. Os líderes, ao pregar, estão convocados a explorar essas verdades profundas, revelando a relevância da mensagem de Cristo em todas as esferas da vida. O pastor deve ser um arauto da verdade divina, levando aos ouvintes a entenderem que somente em Cristo se encontra o verdadeiro sentido da vida, a solução para o desespero humano e a prometida restauração de todas as coisas.
Assim, a igreja do Senhor é chamada a erguer-se como um farol de esperança, verdade e amor, ramenando essa mensagem ao mundo ferido e perdido que anseia tão desesperadamente por redenção. Somente através da cristologia bíblica, fielmente proclamada, se cumprirá o desejo divino de que toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. A pregação protestante deve ser, portanto, um eco da grande narrativa da salvação, centrada em Cristo, refletindo Sua beleza, majestade e a Sua capacidade de transformar vidas por meio do poder da Palavra viva e eficaz.