A interpretação bíblica – ontem e hoje

A interpretação judaica

Esdras e os escribas

Quando os judeus retomaram do exílio na Babilônia, tudo indica que falavam aramaico, e não hebraico. Consequentemente, quando Esdras, o escriba (Ne 8.1, 4, 13; 12.36), leu a lei (Ne 8.3), os levitas vv . 7-9) tiveram de traduzir do hebraico para o aramaico. Talvez seja este o sentido de “claramente” (v. 8). O termo hebraico paras significa “tomar claro” ou “interpretar”, e provavelmente o sentido aqui é “traduzir”. Além disso, os levitas “expunham o significado” enquanto circulavam entre o povo, ou seja, explicavam, interpretavam a lei “de maneira que entendessem o que se lia” (v. 8). Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam as Escrituras, mas também as copiavam. Eles tinham grande reverência pelos textos do Antigo Testamento, mas essa veneração logo caiu no exagero. Por exemplo, o Rabino Akiba (507-132 d.C.), líder de uma escola para rabinos em Jaffa, na Palestina, “afirmava que toda repetição, figura, paralelismo, sinonímia, palavra, letra, partícula, pleonasmo e, ainda mais, a própria forma de uma letra possuíam um significado oculto, assim como cada fibra da asa de uma mosca ou da perna de uma formiga tem sua importância curiosa”.

Akiba ensinava que “assim como o martelo que trabalha ao fogo provoca muitas fagulhas, cada versículo das Escrituras possui muitas explicações”. Ele asseverava que cada monossílabo do texto bíblico tinha vários significados.Havendo um “e” ou um “também” a mais, ou ainda uma flexão, sempre devem merecer interpretação especial. Se 2 Reis 2.14 diz que Eliseu “Também […] bateu nas águas” [PIB], é sinal de que Eliseu fez mais milagres no Jordão do que Elias. Quando Davi afirma “o teu servo matou também o leão, também o urso”, o significado (pela regra de inclusão sobre inclusão) é que ele tinha matado pelo menos três animais. Quando se lê que Deus visitou Sara, isso quer dizer que […] ele [também] visitou outras mulheres estéreis.

Hillel e Shammai

O Rabino Hillel (70 a.C.?-10 d.C.?) foi um líder proeminente entre os judeus da Palestina. Nascido na Babilônia, fundou uma escola em Jerusalém que levou seu nome. Ele era conhecido por sua humildade e seu amor. Hillel dividiu em seis tópicos as diversas regras que se desenvolveram entre os judeus acerca dos 613 mandamentos da lei mosaica. Estabeleceu ainda sete regras para a interpretação do Antigo Testamento. Wood faz a seguinte síntese dessas regras:

A primeira está associada a inferências do menos para o mais importante e vice-versa. A segunda é a inferência por analogia. A terceira é a “formação de uma família”, isto é, quando um grupo de passagens possui conteúdos semelhantes, considera-se que tal grupo tenha a mesma natureza, oriunda do sentido da passagem principal do grupo. Assim sendo, pode-se interpretar o que está difícil de perceber nas passagens levando-se em consideração o trecho principal. A quarta é como a terceira, limitada porém a duas passagens. A quinta regra baseia-se numa relação entre o genérico e o específico. A sexta era a exposição com base em outra passagem parecida. A sétima trata de uma dedução a partir do contexto.

Shammai, da mesma época que Híliel, diferia dele tanto no que se refere à personalidade quanto à hermenêutica. Indivíduo de temperamento violento, interpretava a lei com rigor. Os ensinamentos desses dois rabinos quase sempre se contrapunham. Após a queda de Jerusalém em 70 d.C., a escola de Hillel ganhou fama, ao passo que a de Shammai foi perdendo importância e influência.

A alegorização judaica

Alegorizar é procurar um sentido oculto ou obscuro que se acha por trás do significado mais evidente do texto, mas lhe está distante e na verdade dissociado. Em outras palavras, o sentido literal é uma espécie de código que precisa ser decifrado para revelar o sentido mais importante e oculto. Segundo este método, o literal é superficial, e o alegórico é que apresenta o verdadeiro significado. A alegorização judaica sofreu influências da alegorização grega. Os filósofos gregos, ao mesmo tempo em que admiravam os antigos escritos gregos de Homero (século IX a.C.) e de Hesíodo (século VIII a.C.), ficavam constrangidos com o comportamento imoral e com os antropomorfismos dos deuses imaginários da mitologia grega constantes naquela literatura. Por exemplo, Fedra apaixonou-se por seu enteado Hipólito. Zeus teve de derrotar Tífon, de três cabeças. E Ares, o deus grego da guerra, tinha prazer nas matanças.

Como os filósofos gregos podiam louvar essa literatura e ao mesmo tempo aceitar seus elementos “fantasiosos, grotescos, disparatados ou imorais”? A solução que os filósofos adotaram para contornar o problema foi alegorizar as histórias, procurando sentidos ocultos sob o texto literal. Teógenes de Régio, que viveu por volta de 520 a.C., pode ter sido o primeiro filósofo grego a alegorizar Homero. Outra teoria sobre o primeiro filósofo a alegorizar Homero é Ferecides de Siros, do século vu a.C,. O método da alegorização permitiu que os filósofos gregos que surgiram mais tarde, tais como os estóicos, Querêmon e Cíeanto, impulsionavam suas idéias ao mesmo tempo em que se proclamavam fiéis aos escritos antigos. Eles podiam divulgar seus próprios ensinamentos sob o pretexto de alegorizar a mitologia de Homero e de Hesíodo. Assim sendo, os escritores gregos valiam-se de alegorias com fins explicativos, para que os poetas gregos não fossem ridicularizados. Os judeus de Alexandria, no Egito, foram influenciados pela filosofia grega.

Mas também tinham um problema a resolver: como podiam aceitar o Antigo Testamento e também a filosofia grega, especialmente a de Platão? A solução foi a mesma encontrada pelos filósofos gregos: alegorizar o Antigo Testamento. Os judeus alexandrinos preocupavam-se com os antropomorfismos e as imoralidades do Antigo Testamento, da mesma forma que os filósofos gregos ficavam constrangidos com esses elementos em Homero e em Hesíodo. Como havia muitos gregos em Alexandria, os judeus foram logo influenciados e prontamente adotaram a alegorização do Antigo Testamento. Assim, poderiam conviver tanto com este quanto com a filosofia grega. Eles também viam a questão como uma forma de justificativa, uma maneira de defender o Antigo Testamento perante os gregos. A versão da Septuaginta — tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria cerca de 200 anos antes de Cristo — procurou remover deliberadamente os antropomorfismos de Deus. Por exemplo, ela traduz “O SENHOR é homem de guerra”, de Êxodo 15.3, em hebraico, por “o Senhor esmaga as guerras”. “A forma do SENHOR”, em Números 12.8, é traduzida do hebraico por “a glória do Senhor”.

A Septuaginta traduz Êxodo 32.14, “Então se arrependeu o SENHOR do mal…” por “então o Senhor se compadeceu”. Existem dois nomes de relevo na alegorização judaica de Alexandria: Aristóbulo e Filo. Aristóbulo, que viveu por volta de 160 a.C., acreditava que a filosofia grega estava baseada no Antigo Testamento e que aqueles ensinamentos só podiam ser desvendados mediante alegorização. A Epístola de Aristéias, escrita por um judeu alexandrino aproximadamente no ano 100 a.C., ilustra a alegorização judaica. Ela afirma que as leis dietéticas realmente ensinavam várias formas de discriminação necessárias à obtenção da virtude e que o processo de ruminação de certos animais simboliza a meditação sobre a vida e a existência (Epístola de Aristéias, 154). Filo (c. 20 a.C.-c. 54 d.C.) é o alegorista judeu-alexandrino mais famoso. Ele também sofreu influência da filosofia grega, mas, como era um judeu devoto, procurou defender o Antigo Testamento contra os gregos e, muito mais ainda, contra seus companheiros judeus. Seu desejo de evitar contradições e blasfêmias levou-o a alegorizar o Antigo Testamento, em vez  de seguir sempre um método literal de interpretação.

Filo disse que a alegorização é necessária para evitar as declarações aparentemente impróprias de Deus ou as afirmações aparentemente contraditórias do Antigo Testamento. Disse também que a alegorização faz-se necessária quando a própria passagem indica que se trata de uma alegoria. Filo ensinava que Sara e Hagar representam a virtude e a cultura, e Jacó e Esaú, a prudência e a insensatez; que o episódio em que Jacó se deitou e apoiou a cabeça numa pedra simboliza a autodisciplina da alma e o candelabro de sete hásteas que havia no tabernáculo e no templo representa sete planetas. A alegorização também se utilizava de sinônimos e jogos de palavras. Farrar cita os seguintes exemplos dos escritos de Filo:

Se o texto bíblico diz que Adão “se escondeu de Deus”, essa expressão é uma desonra a Deus, que vê todas as coisas — portanto, só se pode tratar de alegoria. Quando lemos que Jacó, dispondo de tantos servos, enviou José para procurar os irmãos, que Caim tinha esposa ou construiu uma cidade, que Potifar tinha uma esposa, que Israel era uma “herança de Deus” ou que Abraão foi chamado de “o pai” de Jacó em vez de avô, estamos diante de “contradições”, e, conseqüentemente, essas passagens precisam ser alegorizadas.

Filo, porém, não descartou totalmente o significado literal das Escrituras. E ainda disse que este correspondia ao nível mais imaturo de entendimento, correspondente ao corpo, ao passo que o significado alegórico era para o maduro, correspondente à alma. Alguns judeus tomaram-se ascéticos e formaram comunidades fechadas, como a dos essênios de Qumran, perto do mar Morto. Eles copiavam as Escrituras e escreviam comentários sobre alguns dos livros do Antigo Testamento. Eles também sofreram influência da alegorização. No comentário redigido em Qumran sobre Habacuque 2.17, lê-se: “Líbano aqui representa o Conselho Comunitário, e ‘animais ferozes’, os judeus simples de espírito que cumprem a lei”.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags: 32-38