A interpretação bíblica – Os pais alexandrinos e antioquinos

Duas escolas de pensamento surgiram cerca de 200 anos depois de Cristo. Eram escolas de concepções hermenêuticas que tiveram forte impacto sobre a igreja nos séculos posteriores.

Os pais alexandrinos

Panteno, falecido por volta de 190, é o mais antigo mestre da Escola Catequética de Alexandria, no Egito, de que se tem notícia. Ele foi professor de Clemente (não confundi-lo com Clemente de Roma, mencionado anteriormente). Não é de admirar que Clemente (155-216), morador de Alexandria, tivesse sido influenciado pelo alegorista judeu Filo. Clemente ensinava que todas as Escrituras utilizam uma linguagem simbólica misteriosa. Um dos motivos disso é que servia para despertar a curiosidade dos leitores, e outro era que as Escrituras não deviam ser entendidas por todos. Clemente afirmou que qualquer passagem da Bíblia pode ter até cinco significados; a) histórico (as histórias bíblicas); b) doutrinário, com ensinamentos morais e teológicos; c) profético, que inclui tipos e profecias; d) filosófico (alegorias com personagens históricas, como Sara, que simbolizava a verdadeira sabedoria, e Hagar, que representava a filosofia pagã e e) místico (verdades morais e espirituais).

Em sua excessiva alegorização, Clemente ensinava que as proibições mosaicas de comer porco, falcão, águia e corvo (Lv 11.7, 13-19) representavam respectivamente a ânsia impura pela comida, a injustiça, o roubo e a cobiça. No episódio em que 5 000 pessoas foram alimentadas (Lc 9.10-17), os dois peixes simbolizam a filosofia grega (As Miscelâneas, 6.11). Orígenes (c. 185-254) era homem muito culto e de grande magnetismo. Adorador das Escrituras, elaborou os Hexapla — obra em que o texto hebraico e mais cinco versões gregas do Antigo Testamento ficavam dispostos em seis colunas paralelas. Esse trabalho imensurável consumiu cerca de 28 anos. Ele escreveu uma série de comentários e homilias sobre grande parte da Bíblia, e também redigiu vários trabalhos apologéticos, entre eles Contra Celso e De Principiis. Neste último, ressaltou que, como a Bíblia está repleta de enigmas, parábolas, afirmações de sentido obscuro e problemas morais, o sentido só pode ser encontrado num nível mais profundo.

Esses problemas incluem a existência de dias em Gênesis 1 antes de o Sol e a Lua terem sido criados, o fato de Deus caminhar pelo jardim do Éden, outros antropomorfismos como a face de Deus e problemas morais como o incesto de Ló, a embriaguez de Noé, a poligamia de Jacó e a sedução de Judá por Tamar, entre outros. Valendo-se de suas alegorias, Orígenes rebateu prontamente estas e outras questões que os inimigos do Evangelho usavam para atacar o cristianismo. Aliás, ele afirmou que as próprias Escrituras exigem que o intérprete empregue o método alegórico (De Principiis, 4.2.49; 4.3.1). Ele via um sentido triplo nos textos bíblicos: literal, moral e espiritual/alegórico. Tal concepção estava fundamentada na tradução da Septuaginta de Provérbios 22.20, 21: “Registra-as três vezes […] para que possas responder com palavras de verdade”, Esse sentido triplo também é sugerido em 1 Tessalonicenses 5.23 pelo corpo (literal), pela alma (mortal) e pelo espírito (alegórico).

Na realidade, ele costumava enfatizar só dois sentidos: o literal e o espiritual (a “letra” e o “espírito”). Todos os textos bíblicos tem significado espiritual, afirmava, mas nem todos possuem significado literal. Mediante a alegorização, Orígenes ensinava que a arca de Noé simbolizava a igreja e que Noé simbolizava Cristo. O episódio em que Rebeca tirou água do poço para os servos de Abraão significa que devemos recorrer diariamente às Escrituras para ter um encontro com Cristo. Na entrada triunfal de Jesus, a jumenta representava o Antigo Testamento, o jumentinho o Novo Testamento e os dois apóstolos os aspectos moral e místico das Escrituras. Orígenes desconsiderou a tal ponto o sentido literal e normal das Escrituras, que seu estilo alegórico passou a ser caracterizado por um exagero incomum. Como disse certo autor, era “fantasia desmedida”.1

Os pais antioquinos

Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos pais alexandrinos, vários líderes da igreja em Antioquia da Síria sublinharam a interpretação histórica, literal. Eles incentivaram o estudo das línguas bíblicas originais (hebraico e grego) e redigiram comentários sobre as Escrituras. O elo entre o Antigo e o Novo Testamento era a tipologia e as profecias em vez da alegorização. Para eles, a interpretação literal incluía a linguagem figurada. Doroteu, com seus ensinamentos, ajudou a abrir caminho para a instituição da escola em Antioquia da Síria. Luciano (c. 240-312) foi o fundador da escola antioquina. Diodoro, também da escola antioquina (m. 393), elaborou a obra Que Diferença Há entre Teoria e Alegoria?.

Ele empregou a palavra teoria em referência ao sentido autêntico do texto que, conforme disse, contém tanto metáforas quanto afirmações explícitas. Foi ele o mestre de dois outros pais antioquinos famosos: Teodoro da Mopsuéstia e João Crisóstomo. Conta-se que Teodoro da Mopsuéstia foi o maior intérprete da Escola de Antioquia. No último de seus cinco livros, Da Alegoria e História Contra Orígenes, ele pergunta: “Se Adão não era de fato Adão, como a morte foi introduzida na raça humana?”. Apesar de Teodoro contestar a canonicidade de vários livros da Bíblia, é conhecido como o príncipe da exegese primitiva. Gilbert escreveu: “O comentário de Teodoro [de Mopsuéstia] sobre as epístolas menores de Paulo é o primeiro e praticamente o último trabalho exegético elaborado na igreja primitiva a ter qualquer semelhança com os comentários modernos”.2

João Crisóstomo (c. 354-407) era arcebispo de Constantinopla. Suas mais de 600 homilias — que consistem em discursos expositivos de aplicação prática — levaram certo autor a afirmar: “Crisóstomo é indubitavelmente o maior comentarista dentre os primeiros pais da igreja”.3 Suas obras contêm cerca de 7 000 citações do Antigo Testamento e em tomo de 11 000 do Novo. Teodoreto (386-458) escreveu comentários sobre a maioria dos livros do Antigo Testamento e sobre as epístolas de Paulo. Seus comentários, segundo Terry, “encontram-se entre os melhores exemplares da exegese primitiva”.4

1. Emest F. Kevan, The principies of interpretation, in: Cari F, H, HENRY, ed., Revelation and the Bible, Gratid Rapids, Baker Book House, 1958, p, 291.
2. G. H. GILBERT, The interpretation of the Bible: a short history, apud RAMM, op. cit., p. 50. 17. 3. Terry, op, cit. p. 649.

4. Ibid., p. 650.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 41-43

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