A interpretação bíblica – Os pais da igreja primitiva

Pouco se sabe sobre a hermenêutica dos primeiros pais da igreja, daqueles que viveram no século I d.C. Mas sabe-se que em seus escritos proliferavam as citações do Antigo Testamento e que entendiam que este deixava prever a Cristo. Clemente de Roma viveu por volta de 30 a 95 d.C. Ele fazia muitas citações detalhadas do Antigo Testamento. Citava também o Novo Testamento com freqüência, visando a reforçar suas próprias exortações. Inácio de Antioquia da Síria, (c. 35-107) escreveu sete cartas endereçadas a Roma, nas quais fazia constantes alusões ao Antigo Testamento e salientava a figura de Jesus Cristo. Policarpo de Esmirna (70-155) também fez diversas citações do Antigo e do Novo Testamento em sua Epístola aos Filipenses. A Epístola de Barnabé cita o Antigo Testamento 119 vezes. Também utiliza alegorias constantemente. Exemplo clássico é a menção que Barnabé faz dos 318 servos de Abraão (Gn 14.14).

Ele afirmou que existem três letras gregas que representam o número 318 e que cada uma tem um significado. A letra grega t equivale a 300 e representa a cruz; as letras i e equivalem a 10 e 8 respectivamente, e são as primeiras duas letras de Iêsous (Jesus, em grego). Portanto, os 318 servos representam Jesus na cruz. Barnabé escreveu: “Deus sabe que nunca ensinei a ninguém nada mais verdadeiro, e acredito que sois dignos disso”. Esta prática de atribuir significado aos números é conhecida como gematria. As outras interpretações de Barnabé são um pouco forçadas. Por exemplo, ele disse que aquela frase de Salmos 1.3, “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas”, fala do batismo e da cruz.

O fato de a folhagem não murchar indica que o justo haverá de trazer provisões e esperança para muitas pessoas. A partir do exemplo desses pais da igreja primitiva, fica evidenciado que, apesar do fato de terem tido um bom começo, logo foram influenciados pela alegorização. Mesmo assim, entendiam que o Antigo Testamento continha muitos tipos que falavam de Jesus Cristo. Justino Mártir (c. 100-164) fazia muitas citações das Escrituras em suas obras, quase sempre com o objetivo de mostrar que o Antigo Testamento prenunciava Cristo.

Justino era um defensor apaixonado e destemido do cristianismo. Era homem muito culto e adorava usar seus conhecimentos de filosofia grega para ilustrar e reforçar os ensinamentos das Escrituras. Mas suas exposições costumam ser fantasiosas, quase tolas, às vezes. Ele […] leva a interpretação comum do Antigo Testamento a uma fantasia literária desarrazoada.10

Justino afirmava que Lia representa os judeus, Raquel simboliza a igreja e Jacó é Cristo, que serve a ambos. A atitude de Arão e Hur de sustentar as mãos de Moisés simboliza a cruz. Justino afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência, dizia ele, era percebida por meio da alegorização. Em seu Diálogo com Trífon, ele contestou Marcião, escritor da época da igreja primitiva que não aceitava o Antigo Testamento e acreditava que este não tinha a menor aplicabilidade para os cristãos modernos. Marcião sustentava que nem a alegorização conseguia tomar-lhe aplicável. Ireneu morou em Esmirna (hoje parte da Turquia) e em Lião (hoje na França). Ele viveu de 130 a 202 aproximadamente. Contrapondo-se aos gnósticos e às suas interpretações fantasiosas, Ireneu ressaltou, em sua obra Contra Heresias, que a Bíblia deve ser entendida de acordo com seu sentido óbvio, verdadeiro.

Fazendo frente a outros hereges, como os valentinianos e os seguidores de Marcião, que rejeitavam o Antigo Testamento, Ireneu frisou que este é aceitável para os cristãos porque está repleto de tipos. Em certos casos, entretanto, a tipologia por ele desenvolvida chegava às raias da alegoria. Ele afirmou, por exemplo, que os três espias (e não dois!) que Raabe escondeu representavam Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Nos cinco volumes de sua obra A Refutação da Falsa Gnose, ele acusa seus adversários de cometerem dois erros. Primeiro, eles deixaram de lado a ordem e o contexto das passagens bíblicas, tomando passagens e palavras isoladas e interpretando-as tendo em mente suas próprias teorias. Segundo, acusou os valentinianos de interpretarem passagens claras, evidentes, pelo
prisma da obscuridade.11

Ireneu assinalou que uma afirmação ambígua nas Escrituras não deve ser explicada a partir de outra afirmação ambígua. Em seu entender, o único método correto de interpretação é o da fé, preservada nas igrejas mediante a sucessão apostólica.12 Ele costumava apelar para a tradição, dizendo que a exposição autêntica das Escrituras precisava ser aprendida com os anciãos, que podiam considerar-se participantes da sucessão apostólica. Tertuliano de Cartago (c. 160-220) afirmou que as Escrituras são propriedade da igreja. A solução para a heresia é “a regra de fé”, ou seja, os ensinamentos ortodoxos sustentados pela igreja. Tertuliano acreditava que as passagens bíblicas tinham de ser vistas de acordo com o sentido original, interpretadas segundo o contexto em que foram enunciadas ou escritas.13
Contudo, à semelhança do que ocorreu com Ireneu, sua tipologia beirou a alegorização.

O quadro de Gênesis 1.2, do Espírito pairando sobre as águas, simboliza o batismo, e Cristo estava ensinando por meio de símbolos quando disse a Pedro que embainhasse a espada. Tertuliano reprovava os gnósticos por sua alegorização, no entanto recorria a esse estilo sempre que lhe convinha. Os 12 apóstolos são simbolizados pelas 12 fontes de água de Elim, pelas 12 pedras preciosas que o sacerdote levava no peitoral e pelas 12 pedras tiradas do rio Jordão.14. Podemos fazer três observações sobre esses três apologistas: Justino, Ireneu e Tertuliano: 1) O estilo alegórico assumiu um caráter apologético, da mesma forma que sucedera no caso dos filósofos gregos e dos judeus alexandrinos. Tais homens achavam que os problemas do Antigo Testamento eram prontamente resolvidos pela alegorização. 2) A tipologia logo pendeu para a alegorização. 3) A autoridade da igreja foi usada para combater as heresias. Sem saber, esses apologistas acabaram abrindo caminho para que a tradição da igreja ganhasse maior autoridade, e essa perspectiva predominou durante séculos na Idade Média.

10. Terry, op. cit., p. 634
11. Robert M, GRANT & David Tracy, A short history of the interpretation of the Bible, 2. ed., Philadelphia, Fortress Press, 1984, p. 49. 12. Ibid., p. 50. 13. R. P. C. Hanson, Notes on Tertullian’s interpretation of Scripture, Journal of Theological Studies 12:276, 1961. 14. Farrar, op. cit., p. 178.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 38-40

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