A interpretação bíblica – Século XX

O século XX abriga muitas correntes de interpretação bíblica. O liberalismo deu continuidade a uma boa parcela da abordagem racionalista e mais crítica do século XIX. A ortodoxia adotou uma concepção tanto literal quanto devocional da Bíblia. A neo-ortodoxia diz que a Bíblia toma-se a Palavra de Deus nos encontros existenciais do homem. O bultmannismo adotou uma perspectiva mitológica da Bíblia. O liberalismo, que teve grande influência no século XIX, entrou pelo século XX. Nele, a Bíblia é vista como um livro humano não dado pela inspiração divina. Além disso, prega que os elementos sobrenaturais das Escrituras podem ser explicados de forma racional. Dentre os líderes liberais estão: Nels Feré, Harry Emerson Fosdick, W. H. Norton, L. Harold DeWolf e outros. “As doutrinas de pecado, depravação e inferno ofendem a sensibilidade moral dos liberais, daí o fato de as rejeitarem.”

A teoria da evolução de Charles Darwin também é aplicada à religião de Israel, por se entender que Israel evoluiu do politeísmo para o monoteísmo. Jesus é considerado um mestre moral e ético, em vez do Salvador que nos tira do pecado. O fundamentalismo reagiu fortemente ao liberalismo e incentivou uma abordagem literal da Bíblia, como livro sobrenatural que é. Atualmente e em décadas anteriores deste século, muitos estudiosos evangélicos têm-se apegado a uma concepção ortodoxa da Bíblia, enfatizando a interpretação gramatical e histórica, participando assim do legado da escola antioquina, dos vitorinos e dos reformadores. Karl Barth (1886-1968) condenou vigorosamente o liberalismo morto, em sua obra Comentário sobre Romanos, de 1919.

Ele discordava dos liberais, que consideravam a Bíblia um documento meramente humano. Ao contrário, nela Deus fala por meio de contatos entre o divino e o humano. Nesses encontros, há revelação e a Bíblia transforma-se na Palavra de Deus. A Bíblia registra e dá testemunho da revelação; em si mesma, não é a revelação. Emil Brunner (1889-1966) e Reinhold Neibuhr (1892-1971) são outros líderes neo-ortodoxos. Os teólogos neo-ortodoxos negam a inerrância e a infalibilidade da Bíblia. A criação do universo, a criação do homem, a queda do homem, a ressurreição de Cristo e sua segunda vinda são interpretadas em termos mitológicos. A queda é um mito mostrando que o homem corrompe sua natureza moral. A encarnação e a cruz ensinam-nos que a solução do problema da culpa do homem só pode vir de Deus.

Esses acontecimentos se deram num nível histórico diferente, num nível mitológico, e não na história de fato. Rudolf Bultmann (1884-1976) ensinava que o Novo Testamento devia ser compreendido em termos existencialistas pela “demitização”, ou seja, pela destituição de elementos mitológicos “estranhos” — tais como os milagres, entre os quais a ressurreição de Cristo — que, em seu entender, são inaceitáveis atualmente. Esses “mitos” representavam uma realidade para as pessoas nos tempos da Bíblia, mas hoje esses elementos bíblicos não têm sentido literal. Trata-se de recursos poéticos pré-científícos para expressar verdades “espirituais” transcendentes. Jesus, por exemplo, não ressuscitou literalmente dos mortos.

O que sua “ressurreição” simbolizou foi a nova liberdade que os discípulos experimentaram. Influenciado pelo existencialismo do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), o bultmannismo adota uma perspectiva existencialista da Bíblia. Isso significa que a preocupação dos líderes desse movimento é alcançar o âmago da experiência religiosa das Escrituras. Chamado de “nova hermenêutica”, o movimento tem por patrocinadores Emest Fuchs, Gerhard Ebeling e Hans-Georg Gadamer. Na nova hermenêutica, o texto bíblico pode ter o sentido que o leitor desejar. À semelhança da neo-ortodoxia, a nova hermenêutica contesta as verdades proposicionais. A verdade existe no campo existencial, ou seja, é uma experiência, não uma proposição escrita. Portanto, no ensino de Fuchs, não devemos tentar descobrir o sentido dos textos bíblicos.

Devemos apenas deixá-los falar conosco, permitir que modifiquem o entendimento que temos de nós mesmos. Assim sendo, a hermenêutica é o processo de entender a si mesmo. Nesse “encontro com o verbo”, como o chamou Ebeling, ou vislumbre de percepção, o texto fala à nossa situação. Gadamer sustenta que o sentido da Bíblia nunca pode ser totalmente desvendado. Como foi escrita há muitos séculos, o homem moderno não tem condições de penetrar naquele mundo. Portanto, nosso mundo e o mundo bíblico estão contrapostos. A “demitização” implica eliminar os mitos — isto é, aqueles elementos do Novo Testamento que carecem de base científica — e alcançar o âmago do que a Bíblia diz.

Os mitos, embora não sejam cientificamente aceitos pelo homem moderno, têm algo a dizer. Por isso, os estudantes do Novo Testamento precisam descobrir o que tais mitos querem dizer. Isso acontece nos contatos existenciais. Ao criticar o método de Bultmann e dos integrantes da escola da nova hermenêutica, Pinnock salienta que esse movimento impõe significados aos textos bíblicos. “A intenção do texto fica em segundo plano diante das necessidades do intérprete. A Bíblia não nos dirige mais; nós é que a dirigimos!”

Conclusão

Além do método literal de interpretação das Escrituras, quatro outros métodos predominaram em várias fases da história da igreja: o alegórico — que praticamente deixa de lado o literal; o tradicional — que em grande parte abandona o individual; o racionalista — que descarta o sobrenatural e o subjetivo — que desconsidera o objetivo. Hoje ainda existem muitas correntes de pensamento associadas à Bíblia. De quando em quando, pode-se ouvir uma alegorização feita de um púlpito. Por exemplo, afirma-se que a Porta do Peixe, em Neemias 3.3, representa a evangelização (pois Jesus pregava que seus seguidores deviam ser pescadores de homens).

A Porta Velha (ou Jeshanah; v. 6) simboliza o velho homem (ou seja, a natureza pecaminosa). E a Porta da Fonte (v. 15) representa o Espírito Santo, que enche nossas vidas com a água viva. Contudo, não se vê em Neemias 3 nenhum fundamento para tal alegorização. A Igreja Católica Romana continua exaltando as tradições da igreja acima das Escrituras, embora aconteça de se ouvir de vez em quando sobre sacerdotes que incentivam os fiéis a lerem a Bíblia. Nos púlpitos liberais, o racionalismo e a experiência humana, ou o subjetivismo, continuam sendo a norma. A razão humana é colocada acima da revelação divina, Deus é roubado de seu caráter sobrenatural, e a Bíblia é destituída de autoridade. A neo-ortodoxia não é tão comum hoje quanto há algumas décadas, tendo sido parcialmente substituído pela nova hermenêutica de Bultmann.

Figuram entre outros métodos hermenêuticos surgidos nos últimos anos: o estruturalismo — que despreza o passado histórico dos textos bíblicos e entende que a Bíblia possui os mesmos elementos estruturais básicos inerentes à literatura de ficção de todas as culturas e épocas; a teologia da libertação — que interpreta quase toda a Bíblia pela conveniente ótica dos oprimidos econômica e politicamente; a teologia feminista — que analisa a Bíblia do prisma das vítimas da discriminação sexual; e a hermenêutica étnica — que busca sentidos supra culturais codificados nas Escrituras. Essa breve retrospectiva da história da hermenêutica mostra a importância de os evangélicos continuarem a enfatizar a interpretação histórica, gramatical e literária da Bíblia. Somente esta, como será tratada neste livro, capacita os cristãos a entenderem a Palavra de Deus corretamente, como fundamento que é de uma vida piedosa

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 62-67

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