A salvação na Antiga Aliança

Desde o Gênesis até o Apocalipse, Deus deixa bem claro que ninguém se salva por obras próprias, mas apenas pela fé nas promessas divinas. Só no  Éden a salvação foi apresentada com base na obediência, com a advertência acompanhada da pena de morte para a transgressão da ordem de Deus: “Mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá” (Gn 2.17). Em Gênesis 3, essa determinação foi quebrada tanto por Adão quanto por Eva, por causa da tentação e do engano de Satanás; e o Senhor lhes confirmou a sentença de morte, ao afirmar: “Você é pó, e ao pó voltará” (Gn 3.19). A partir desse dia, nenhum ser humano salvou-se pela obediência — exceto a raça dos redimidos, os quais são resgatados pela fé na expiação de Cristo, cujo ato de obediência pagou o preço de nossa salvação.

É verdade que em ambos os Testamentos existe uma grande ênfase na obediência. Em Êxodo 19.5, assim prometeu Deus a Israel: “Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações”. Entretanto, de modo algum essa passagem sugere um caminho alternativo para o céu, além da trilha da fé; ao contrário, essa promessa foi dada a um grupo de crentes que já se havia arrependido do pecado e entregue seu coração ao Senhor pela fé. A obediência era apenas uma evidência necessária do fruto da fé. Não é a maçã que faz da árvore de que surgiu uma macieira; é esta que faz seu fruto ser uma maçã. Disse Jesus: “Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mt 7.16); em outras palavras, as uvas vêm da vinha, não dos espinheiros; os figos das figueiras, e não dos pés de urtiga.

A obediência é a consequência natural e necessária da fé, mas nunca é apresentada como substituta desta em parte alguma das Escrituras. Devemos observar que, logo de início, Adão e Eva ensinaram a seus filhos a necessidade de fazer holocaustos perante o Senhor pelos pecados que tivessem cometido. Assim foi que Abel apresentou um sacrifício aceitável em seu altar — um ato de fé que tipicamente representou por prenuncio a expiação que seria feita mais tarde no Calvário. Hebreus 11.4 esclarece: “Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim […]. Embora esteja morto, por meio da fé ainda fala”. Gênesis 15.6 registra que, quando Abraão creu em Deus, o Senhor lhe imputou a fé por justiça. Romanos 4.13 diz-nos que “Não foi mediante a Lei que Abraão e a sua descendência receberam a promessa de que ele seria herdeiro do mundo, mas mediante a justiça que vem da fé”.

Quanto à geração de Moisés, a quem a promessa de Êxodo 19.5 fora feita, de modo algum poderia haver qualquer mal-entendido concernente ao princípio da salvação mediante a fé e nada mais. Do capítulo que contém os Dez Mandamentos vem-nos a primeira de várias referências ao culto sacrificial: “Façam-me um altar de terra e nele sacrifiquem-me os seus holocaustos e as suas ofertas de comunhão, as suas ovelhas e os seus bois” (Êx 20.24). O princípio subjacente a cada sacrifício era este: a vida do animal inocente substituía a vida cheia de culpa e deturpada do crente. Este recebia o perdão de Deus somente mediante o arrependimento e a fé, jamais pela obediência.

Hebreus 10.4 refere-se à antiga dispensação do AT e declara: “É impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados”. Antes, em 9.11, 12, declaram as Escrituras: “Quando Cristo veio como sumo sacerdote dos benefícios agora presentes, ele adentrou o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito pelo homem, isto é, não pertencente a esta criação. Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos Santos, de uma vez por todas, e obteve eterna redenção”. Então, de que forma o benefício da expiação pelo sangue é trazido aos pecadores? Ele só vem pela fé, não mediante obras de obediência, como trabalhos meritórios — quer antes, quer depois da cruz.

Assim declaram as Escrituras: “Vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Ef 2.8). Mas que tipo de fé? A fé falsificada que trai a si mesma mediante a desobediência à vontade revelada de Deus e pela escravidão da alma ao pecado? Certamente não! A salvação só pode advir mediante a fé verdadeira e viva que assume com seriedade o senhorio absoluto de Cristo e produz um viver santo — uma vida de verdadeira obediência, baseada na entrega genuína do coração, da mente e do corpo (Rm 12.1). É dessa perspectiva que devemos entender os ardentes chamados à obediência por parte dos profetas do AT: “Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os melhores frutos desta terra; mas, se resistirem e se rebelarem, serão devorados pela espada” (Is 1.19, 20).

A exigência exposta por Jesus é muito semelhante a essa: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?” (Lc 6.46). Os apóstolos confirmam: “Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Portanto, não permitam que o pecado continue dominando os seus corpos mortais, fazendo que vocês obedeçam aos seus desejos [… ] Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça” (Rm 6.11, 12, 17, 18).

Fonte: Enciclopédia de Temas Bíblicos
Respostas às principais dúvidas, dificuldades e “contradições” da bíblia
Gleason Archer
Editora : Vida – pgs: 63-64

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