A transposição do abismo cultural

No livro Alice no País do Espelho, Humpty Dumpty disse para Alice: “— Existem 364 dias nos quais uma pessoa pode receber um presente de in-aniversário”. Alice concordou, e ele acrescentou: “E um dia só em que possa receber presente de aniversário, não é? Logo, glória para você! “— Não sei o que quer dizer com esse ‘glória’, objetou Alice. “Humpty Dumpty sorriu. “— Está claro que não sabe, nem o saberá enquanto eu não o disser. Glória quer dizer um argumento de escachar. “— Mas ‘glória’ jamais significou isso, que eu saiba, senhor! “— Quando eu uso uma palavra, replicou Humpty com superioridade, ela significa o que eu quero que signifique — e nada mais. “— Mas a questão é se o senhor pode dar significado diferente às palavras…”

Alice estava preocupada porque Humpty Dumpty tinha redefinido a palavra glória. Sua preocupação provinha do fato de que, em geral, para comunicar-se, uma pessoa não redefine palavras, dando-lhes sentidos completamente diversos dos aceitos em geral. No entanto, quando alguém explica algo diferente que disse, os ouvintes podem entender. Se lemos a declaração de Humpty Dumpty de que um aniversário significa “glória para você”, sem uma explicação, ficamos confusos. Mas, pelo contexto, no qual ele explica a frase, seu sentido fica claro. As pessoas costumam fazer isso com a Bíblia. Isolam uma palavra, uma frase ou um parágrafo e pensam que significa o que acham que significa.

Não levar em consideração o contexto consiste num dos problemas mais graves na interpretação bíblica. Se desconsiderarmos o “meio envolvente” de um versículo bíblico, poderemos acabar interpretando-o de forma completamente errada. Precisamos levar em conta as frases e os parágrafos que antecedem e sucedem o versículo em questão e, ainda, considerar o contexto cultural em que aquela passagem e até mesmo o livro inteiro foram escritos. A importância desse procedimento decorre das diferenças culturais que existem entre nossa cultura ocidental e a cultura dos tempos bíblicos.

“Para entender a Bíblia adequadamente, precisamos esvaziar nossas mentes de todas as ideias, opiniões e métodos modernos e procurar transportar-nos para a época e o ambiente em que viviam os apóstolos e os profetas que. a escreveram.”

Quanto mais tentamos transportar-nos para o contexto histórico dos autores bíblicos e nos desvincular de nossas próprias culturas, mais cresce a probabilidade de interpretarmos as Escrituras com maior precisão. Quando os reformadores (Martinho Lutero, Philip Melanchton, João Calvino, Ulricn Zuínglio e outros) acentuaram a necessidade do retomo às Escrituras, eles ressaltaram a interpretação histórica, gramatical. Com “histórica”, estavam-se referindo ao contexto em que os livros da Bíblia foram escritos e às circunstâncias em jogo. Com “gramatical”, referiam-se à apuração do sentido dos textos bíblicos mediante estudo das palavras e das frases em seu sentido normal e claro.

Pode-se somar outro aspecto da interpretação a esses dois, a saber, o retórico. A interpretação retórica sugere estudar como as características literárias de um trecho bíblico influem em sua interpretação. Conjugando as três, podemos falar de uma interpretação histórica, gramatical e retórica. Este capítulo versa sobre a interpretação histórica, examinando as circunstâncias e o contexto cultural em que os textos foram escritos. O contexto em que determinada passagem bíblica foi escrita influi no entendimento que se terá dela.

O contexto abrange vários elementos:

• o(s) versículo(s) imediatamente anterior(es) e posterior(es);

• o parágrafo e o livro em que o versículo se encontra;

• a dispensação em que foi escrito;

• a mensagem de toda a Bíblia;

• o ambiente histórico-cultural da época em que foi escrito.

A maioria dos livros sobre interpretação bíblica começa tratando dos primeiros elementos da lista e depois discute o ambiente histórico-cultural da época em que os autores o escreveram. Quero inverter tal ordem, pois este último fator normalmente influi nos outros contextos. É importante conhecer as circunstâncias que cercavam determinado livro da Bíblia. Para tanto, procura-se responder às seguintes perguntas:

Quem escreveu o livro? Em que época foi escrito? O que levou o autor a escrevê-lo? Em outras palavras, a que problemas, situações ou necessidades ele estava referindo-se? De que trata o livro? Ou seja, qual é seu tópico ou tópicos principais? Para quem foi escrito? Quer dizer, quem foram os primeiros leitores ou ouvintes? As respostas a essas indagações podem ajudar-nos a discernir o que o livro está dizendo. A preocupação central deste capítulo é o ambiente cultural em que os autores humanos da Bíblia trabalharam. Em qualquer cultura ou época, os escritores de um documento, assim como os leitores, sofrem a influência do contexto social.

O livro de Naum, por exemplo, demonstra que o profeta conhecia a cidade de Nínive, e o livro de Habacuque reflete o conhecimento que o profeta tinha dos babilônios. Uma série de declarações do livro de Colossenses mostra a possibilidade da influência de uma seita filosófica e religiosa em Colossos, que poderia ter sido uma forma incipiente do que viria a ser mais tarde o gnosticismo. Grande parte do livro de Lamentações quase não faz sentido, a menos que o leitor se lembre de que Jeremias estava escrevendo um canto fúnebre, lamentando a destruição de Jerusalém pelos babilônios. Os acordos que os hititas faziam com seus vassalos (povos conquistados) foram escritos como pactos em determinado estilo literário.

Parece que Moisés adotou esse estilo ao escrever Deuteronômio e trechos de Êxodo. O conhecimento do contexto cultural de um trecho ajuda-nos também a entender o significado daquele documento para os que primeiro o leram. A Magna Carta britânica faz mais sentido quando entendemos o ambiente cultural da Inglaterra do século XIII. Dada a existência de um abismo cultural entre nossa era e os tempos bíblicos — e como nosso objetivo na interpretação bíblica é descobrir o sentido original das Escrituras — é imperativo que nos familiarizemos com a cultura e os costumes de então. Conforme Sproul escreveu:

A não ser que acreditemos tenha a Bíblia caído do céu de pára-quedas, escrita com uma pena celestial numa língua celestial curiosa, exclusivamente adequada como instrumento de revelação divina, ou então que foi ditada por Deus direta e imediatamente, sem referência a nenhum costume regional, estilo ou perspectiva, seremos obrigados a encarar os abismos culturais. Isto é, a Bíblia retrata a cultura de sua época.

Fonte: A interpretação Bíblica – Meios de descobrir a verdade da Bíblia.
Roy B. Zuck
Tradução de Cesar de E A. Bueno Vieira
edições vida nova.
pags 87-90

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