As limitações da arqueologia

Enquanto a arqueologia é de grande ajuda para a compreensão das Escrituras, os que com esse propósito dela se utilizam devem evitar que as evidências materiais os levem a criticar a autenticidade e a exatidão do texto bíblico. A. Momigliano expressa corretamente esse cuidado:

Bíblicos ou clássicos, nós, historiadores, temos aprendido que a arqueologia e a epigrafia não podem tomar o lugar da tradição viva de uma nação […] Ao mesmo tempo, fomos curados da antiga ilusão de que a confiabilidade de tradições históricas pode ser facilmente demonstrada pela pá do arqueólogo.

Uma das razões para que o registro no texto bíblico tenha prioridade sobre a evidência arqueológica são as limitações da arqueologia, por natureza confinada ao reino material. O professor Amihai Mazar, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, observa:

[…] a arqueologia é obviamente limitada. A arqueologia lida principalmente com a cultura material, não tanto com idéias, filosofia, poesia, sabedoria etc., como temos na Palavra de Deus. A Bíblia é uma riqueza, um mundo cheio de pensamento intelectual. A arqueologia é limitada. Ela nos fornece [somente] cerâmica, construções, fortificações, plantas de cidades, modelos de comunidades, [ou informa] quantos sítios houve em cada período, qual era a população.

A limitação básica da arqueologia é a natureza fragmentária das evidências que se retiram do solo. Edwin Yamauchi, professor de história na Universidade dc Miami, e também em Oxford e Ohio, enfatiza essa limitação ao apontar o nível de fragmentação dos achados arqueológicos. Atualizei suas observações, como segue:

1. Somente uma fração do que é fabricado ou escrito sobrevive.

No caso do material escrito, que acresce diretamente o nosso conhecimento do passado, apesar de vários e grandes arquivos terem sido descobertos no Oriente Próximo, eles representam um número infinitesimal comparado ao que foi destruído. Por exemplo, a grande biblioteca localizada em Alexandria reunia quase um milhão de volumes, muitos dos quais eram cópias únicas, e tudo se perdeu quando ela foi queimada até os alicerces no século VII. A terra de Israel ainda está para produzir um arquivo, de qualquer período, apesar de a correspondência com seus vizinhos ser atestada por descobertas feitas em outras terras. Caso os israelitas tenham usado materiais perecíveis para a escrita, é natural esse vácuo, como já observamos. Se encontrássemos um arquivo, ele provavelmente dataria de um período cananita mais antigo. Tabletes de argila já descobertos em Tel Hazor indicam essa possibilidade. Ainda assim, o que fosse achado constituiria apenas uma fração diminuta do material produzido.

2. Somente uma fração dos sítios arqueológicos disponíveis foi pesquisada.

Em Israel e no Oriente Próximo, existem ainda milhares de tels não escavados. (Tel é um outeiro artificial criado pela repetida destruição e reconstrução de cidades antigas e vilas no mesmo sítio.) Com certeza, os sítios arqueológicos jamais serão devidamente pesquisados no mesmo ritmo das descobertas que se verificam a cada ano. Muitos sítios são conhecidos, porém não recebem a necessária atenção por falta de recursos ou disputas políticas sobre territórios. Outros nunca serão pesquisados porque foram destruídos pelo crescimento populacional e por projetos de construção.

3. Somente uma fração dos sítios pesquisados foram escavados.

Mesmo em Israel, onde está ligada à economia turística nacional — e isto pode ser uma surpresa para muitos —, a arqueologia não recebe alta prioridade. A maior parte do orçamento do governo israelita destina-se ao incremento militar, para proteger o país contra o terrorismo, ou ao desenvolvimento de uma nação ainda jovem. Arqueólogos, na maioria assalariados como professores, precisam levantar de fontes particulares o dinheiro para as suas expedições. E a maior parte dos trabalhadores são voluntários, que pagam as próprias despesas para escavar. Por essas razoes, menos de dois por cento dos sítios pesquisados em Israel foram escavados.

4. Somente uma fração de um sítio é examinada.

Novamente, devido à escassez de recursos, os arqueólogos determinam áreas de prioridade em um tel onde supõem que irão desenterrar os achados mais significativos. Tal seleção faz-se necessária porque, em alguns casos, a provisão de fundos para a continuação do trabalho depende do progresso demonstrado em anos anteriores. Além disso, com tantos sítios ainda inexplorados, encurtam-se as temporadas de escavação e descobertas importantes em potencial são perdidas como resultado de trabalho incompleto. Até os sítios mais estratégicos, escavados por diferentes grupos, contêm ainda muito chão intocado. Tel Hazor, por exemplo, em virtude de suas imensas proporções, representa o tel menos escavado em Israel!

5. Somente uma fração do material encontrado chega ao conhecimento do público.

Nem mesmo os achados mais significativos, como as inscrições, têm publicação garantida, ou o processo pode ser muito demorado. A causa é que muitos deles são fontes de controvérsia. Um exemplo são os rolos da caverna , dos manuscritos do mar Morto: uma demora de quarenta anos apenas para a liberação das fotografias. Os relatórios finais de Kathleen Kenyon sobre Jericó foram publicados trinta anos após a descoberta das ruínas da antiga cidade. Falta de interesse, de perícia, de tempo e de dinheiro também são empecilhos à publicação. Por essa razão, cerca de noventa por cento dos quinhentos mil textos cuneiformes armazenados em depósitos de museus permanecem inacessíveis ao público. O desenvolvimento contínuo da arqueologia como ciência também se constitui obstáculo à publicação das descobertas. Uma enxurrada de especialistas, métodos sofisticados e instrumentação tecnológica multiplicou os domínios nos sítios arqueológicos. Houve um tempo em que alguns anos bastavam para se completar um relatório de campo. Hoje a mesma tarefa pode arrastar-se por décadas.

Por isso, são raros os profissionais cujas carreiras duram o suficiente para testemunhar a publicação das evidências por eles escavadas. Outro problema é proteger dos ladrões os sítios escavados. A cada temporada, sítios são pilhados pelos nômades beduínos e por comerciantes que vivem da venda de antiguidades no mercado negro. Assim, algumas descobertas se perdem para sempre sem ao menos um registro. As limitações da arqueologia deveriam levar os arqueólogos, cientistas sociais e teólogos a não fazerem julgamentos prematuros com base apenas em resquícios arqueológicos, o que pode gerar críticas injustas à historicidade ou à exatidão do texto bíblico. Esse argumento, é claro, vai de encontro à prática contemporânea, defendida por aqueles que supõem a arqueologia avultada além da prioridade bíblica. Mas sempre que ocorrem dúvidas, o tempo tem demonstrado a integridade das Escrituras.

Fonte: Arqueologia- Livro: Arqueologia Bíblia-

Autor: Randall Price, Editora: CPAD,

Pags: 35-39

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