Escavações que recontaram antigas histórias

Você já se perguntou alguma vez por quê a Bíblia devia ter todas as boas histórias? Se as grandes histórias da criação e do dilúvio foram histórias reais, como a Bíblia as apresenta, não deveriam outras culturas antigas terem sabido destas histórias também? Esta suposição foi confirmada quando um número de textos cuneiformes antigos foram descobertos contendo paralelos mesopotâmios dos relatos bíblicos. Tecnicamente falando, esses textos não foram descobertos por arqueólogos no campo, mas por eruditos estudando. Apesar da arqueologia inglesa na Mesopotâmia não ter sido a ciência exata que é hoje, ela desenterrou centenas de toneladas de esculturas monumentais e milhares e milhares de tabletes cuneiformes. A maioria veio através dos esforços de sir Austen Henry Layard, que escavou na antiga capital assíria de Nínive, na década de 1850. No palácio do rei assírio Assurbanipal, ele encontrou milhares de tabletes de argila que haviam sido parte dos arquivos reais.

Eles haviam aparentemente esperado por Layard desde que foram abandonados quando o palácio foi destruído em 612 a.C. Ele embarcou estes tesouros de volta ao Museu Britânico, e lá eles foram cuidadosamente guardados nos recessos do porão do museu. Os eruditos começaram a identificar a tempo, catalogar e decifrar muitos destes tabletes. Estes eruditos podem nunca ter escavado em terra estrangeira, todavia os escritos que eles desenterraram do porão em sua própria terra provaram ser uma das maiores descobertas arqueológicas de todas! Três dos mais antigos textos: o Épico de Atrahasis, Enuma Elish e o Épico de Gilgamés, são especialmente significativos quando comparados à Bíblia.

O Épico de Atrahasis – O Gênesis babilônico

A descoberta do mais antigo texto mesopotâmio com paralelos com o Gênesis foi feita no século passado e chamado Épico de Atrahasis (Atrahasis é o principal personagem da narrativa). Apesar de ter sido primeiro publicado em 1876 por George Smith, do Museu Britânico, descobriu-se em 1956 que ele tinha erroneamente ordenado a destruição dos fragmentos do texto, e em 1965 que tinha somente um quinto do próprio texto! Foi então que o erudito inglês Alan Millard, assistente interino do Departamento de Antiguidades da Ásia Ocidental no Museu Britânico, pôde restaurar outros três quintos de texto dos fragmentos armazenados no porão do museu. Enquanto analisava um texto que tinha sido desenterrado mais de um século antes, ele notou que os escritos pareciam estranhamente como os do livro de Gênesis.

Esta história épica estava preservada num tablete de mais de 1.200 linhas. O tablete em si provavelmente datava do século XVII a.C., mas a história que ele recontava remonta a séculos do período babilônico mais antigo. A história, apesar de apresentada de uma perspectiva teológica dos babilônios, contém muitos detalhes que são semelhantes aos relatos bíblicos da criação e do dilúvio. No conto babilônico, os deuses governavam os céus e a terra {cf. Gn 1.1). Eles fazem o homem do pó da terra misturado com sangue (cf. Gn 2.7; 3.19; Lv 17.11) para tomar dos deuses inferiores a responsabilidade de cuidar da terra (cf. Gn 2.15).

Quando o homem se multiplica sobre a terra e se torna muito barulhento, um dilúvio é enviado (depois de uma série de pragas) para destruir a humanidade {cf. Gn 2.15). Um homem, Atrahasis, é avisado sobre o dilúvio e recebe ordens para construir um barco {cf. Gn 6.14). Ele constrói um barco e enche-o de comida, animais e pássaros. Por este meio ele é salvo enquanto o resto do mundo perece {cf. Gn 6.17-22). Muito do texto é destruído neste ponto, portanto não há registro da atracagem do barco. Contudo, como na conclusão do relato bíblico, a história termina com Atrahasis oferecendo um sacrifício aos deuses e o deus principal aceitando a continuação da existência humana {cf Gn 8.20-22).

Enuma Elish —A criação mesopotâmica

Geoge Smith, que havia traduzido a história mesopotâmica do dilúvio, foi também o primeiro homem a revelar ao mundo a existência de um relato mesopotâmico da criação conhecido como Enuma Elish. Como o Épico de Atrahasis, fragmentos deste texto também tinham vindo da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive, mas outros fragmentos foram mais tarde encontrados em Ashur (a velha capital da Assíria) e Uruk. Em meados de 1920 dois tabletes quase completos foram também achados em Kish. Ao todo, sete tabletes juntos compunham este conto épico. A parte mais interessante deste conto (para estudantes da Bíblia) é aquele em que a criação é recontada sob uma perspectiva babilônica e assíria.

O estranho nome do texto vem das palavras assírias que introduzem o texto: Enuma Elish, que significam “quando acima”. Na pequena porção do texto que menciona a criação, somos avisados que o universo, em suas partes componentes, começou com os deuses principais (que representam as forças da natureza), e foi completado por Marduque, que veio a ser o cabeça do panteão (assembléia de deuses) babilônico. E Marduque, não a criação, que permanece como o tema dominante no épico. Quando procuramos paralelos com o relato de Gênesis encontramos alguns: o caos aquático é separado em céu e terra (cf. Gn 1.1-2, 6-10), a luz é preexistente à criação do sol, lua e estrelas {cf Gn 1.3-5,14-18), e o número sete figura proeminentemente {cf. Gn 2.2-3). Além disso, porém, o contexto mitológico controla o conteúdo.

Os deuses geraram outros deuses aos quais tentam destruir por causa de suas barulhentas festas. A mãe destes deuses, Tiamat, cria monstros para devorá-los, mas o mais forte deles — Marduque — corta-lhe ao meio. E de suas duas metades que os céus e a terra são formados. A humanidade é formada do sangue do líder capturado dos deuses rebeldes (uma espécie de demônio entre os deuses) para trabalharem como escravos para os preguiçosos deuses inferiores e alimentar o panteão babilônico. Este conto mitológico tem pouco em comum com os primeiros capítulos de Gênesis, que nos falam sobre Deus criando o homem à sua própria imagem, dando-lhe o mundo para desfrutar, cuidando dele e buscando amizade com ele. Mesmo assim, a descoberta de Enuma Elish proveu nosso primeiro conhecimento de que outras culturas do Oriente Próximo compartilhavam aspectos da cosmogonia bíblica (relato da criação).

O Épico de Gilgamés — O dilúvio mesopotâmico

Outro achado importante que vem da escavação de Henry Layard foi um velho conto babilónico do dilúvio chamado Épico de Gilgamés. Ele foi nomeado depois que o principal personagem, o rei Gilgamés, que deve ter governado a cidade mesopotâmica de Uruk por volta de 2600 a.C., e que nesta história épica está em busca da imortalidade. Porque nenhuma cópia do texto completo foi encontrada, os eruditos tiveram que compor o texto baseados nos fragmentos de períodos separados por mais de 1.000 anos (1750-612 a.C.)! Enquanto uma data no século XVIII é conjeturada para a composição original, se o material de Gilgamés for confirmado nos tabletes Ebla, a data poderia retroceder a um tempo muito anterior.

O épico como o temos hoje está registrado em 12 tabletes. A história do dilúvio, que aparece no tablete 11, parece ter sido tomada como empréstimo do Épico de Atrahasis (que está incompleto). Quando o Épico de Gilgamés foi publicado pela primeira vez na Europa em 1872, ele causou uma sensação que rivalizava com as teorias de Darwin. Algumas pessoas o declaravam uma prova histórica do dilúvio do Gênesis, enquanto outros ainda desdenhavam da asseveração de que a Bíblia é singular e autêntica. Em toda a literatura mesopotâmica, o conto do dilúvio no tablete 11 representa a principal correlação com o texto bíblico. Na história recontada aqui, Gilgamés é avisado sobre o dilúvio por Utnapishtim, um homem que ganhou imortalidade, e como o Noé bíblico, também passou a salvo pelas águas do dilúvio. Em seu relato do dilúvio, ele diz que o deus criador Ea favoreceu-o avisando-o sobre o dilúvio e ordenando-lhe que construísse um barco (c f Gn 6.2,13-17).

Neste barco ele levou sua família, tesouros e todas as criaturas vivas (cf. Gn 6.18-22; 7.1-16), escapando assim da tempestade enviada pelos céus que destruiu o restante da humanidade (c f Gn 7.17-23). De acordo com seus cálculos, a tempestade acabou no sétimo dia, e a terra seca apareceu no décimo segundo dia {cf. Gn 7.24). Quando o barco veio a repousar sobre o monte Nisir, no Curdistao (ao invés do bíblico monte Ararate, na Turquia), Utnapishtim enviou uma pomba, uma andorinha e finalmente um corvo (cf. Gn 8.3-11). Quando o corvo não voltou ele deixou o barco e ofereceu um sacrifício aos deuses (cf. Gn 8.12-22). Apesar de que estes elementos particulares da história mesopotâmica pareçam excepcionalmente paralelos à história bíblica, uma pessoa que leia a tradução inteira da história achará seu caráter extremamente lendário; seu tom difere dramaticamente do relato do Gênesis.

Fonte: Arqueologia- Livro: Arqueologia Bíblia-

Autor: Randall Price, Editora: CPAD,

Pags: 48-54

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