O papel da crítica textual na correção de erros de transmissão

No comentário anterior referimo-nos várias vezes ao papel desempenhado pela crítica textual quanto aos erros de copistas na transmissão do texto bíblico. Para que o leitor possa compreender um pouco da metodologia seguida pelos especialistas na análise desses desvios, os quais aparecem mesmo nos manuscritos mais antigos e nos melhores documentos, daremos as linhas mestras a serem seguidas para a solução desses problemas. O procedimento-padrão quanto aos erros de transmissão aplica-se a todos os documentos antigos, tanto sagrados quanto seculares. Fique claro, porém, que certos elementos relacionam-se às línguas bíblicas. Incluímos nesses casos o formato das letras hebraicas e o modo como evoluíram desde o período mais remoto até os tempos mais recentes, com a introdução de letras vocálicas (i.e., consoantes que indicavam sons vocálicos ou sua duração nas palavras). No caso do NT, composto numa língua que usava caracteres vocálicos ao lado de consoantes (grego coiné), as mudanças no formato das letras também davam ensejo a erros de cópia ao longo das várias gerações de copistas.

Tipos de erros de transmissão

Certos tipos de erros são susceptíveis de surgir quando se copia um documento original qualquer (Vorlage). Estamos todos sujeitos a substituir uma palavra homófona por outra; i.e., “cozer” por “coser” ou “massa” por “maça”. Em português, temos vários sons que podem ser escritos de diferentes maneiras, resultando em palavras diferentes: “haja” e “aja”, “haver” e “a ver”, “passo” e “paço”. Esse problema não era tão grave no hebraico antigo, nem no grego, mas existem grafias erradas até nos manuscritos mais antigos dos livros bíblicos, em grande parte por causa da semelhança de sons. Um dos erros mais comuns envolve a palavra . Se for escrita assim: l-’ (lamedh-aleph), temos o advérbio de negação “não”. Se, porém, for escrita assim: l-w (lamedh-waw), significa “a ele” ou “para ele”. Em geral, o contexto indica com clareza qual é o que se tem em vista. Todavia, às vezes tanto “não” como “a ele” seriam possíveis, e isso resulta em alguma confusão.

Um bom exemplo de confusão com a palavra encontra-se em Isaías 9.2 (9.3 no texto em português). O TM traz l-‘, o que significa “não”. A Versão atualizada de Almeida, na sua segunda edição, traz: “Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste; alegram-se eles diante de ti, como se alegram na ceifa…”. A Versão autorizada, do rei Tiago, traz: “Tens multiplicado este povo, e [em itálico] não lhe aumentaste a alegria; alegram-se diante de ti segundo a alegria da colheita”. O tradutor entendeu que aquele l-’ era “não” em vez de “lhe”, i.e.”para ele”, “para o povo”. Mas essa tradução introduz uma estranha inversão no pensamento: Deus aumentou o povo, no entanto, não lhe aumentou a alegria; ainda assim, alegram-se como os que se reúnem numa grande colheita. Mas até mesmo os copistas judeus massoréticos perceberam que havia aqui um lapso involuntário na escrita, pelo que colocaram na margem a grafia correta l-w.

Portanto, o texto correto é o que aparece na Atualizada. A Versão siríaca Peshita e o Targum do pseudo-Jônatas, além de vinte manuscritos medievais hebraicos, traduzem a passagem dessa forma, com l-w em vez de l-’. O rolo 1QIsa não colabora muito aqui, uma vez que grafa l-w-’, com aleph e waw. A LXX não ajuda em absolutamente nada, porque o tradutor mutilou o hebraico de vez, de modo que não existe sinais de nenhum dos dois tipos de , como se vê pela sua tradução (“A maioria do povo, que aumentaste em tua alegria, também se alegrará diante de ti como os que se regozijam na ceifa”). A NASB está pelo menos 90% certa ao traduzir: “Multiplicarás a nação, tu lhe aumentarás a alegria; ela estará alegre na tua presença, com a alegria da ceifa”.Depois de examinar esse exemplo de correção textual, vamos pesquisar os onze principais tipos de erro de transmissão conhecidos no campo da crítica textual. Obs: Nesse artigo só mencionaremos um.

  1. Haplografia

Essencialmente, haplografia significa escrever uma vez o que deveria ter sido escrito duas vezes. Nas provas dos alunos de qualquer grau, é comum encontrarmos a palavra “asunto” em vez de “assunto”: um s apenas, em vez de dois — o que daria à palavra o som de azunto. No hebraico, pode haver o caso de se encontrar uma única consoante, quando deveria haver duas. Há também a possibilidade de existirem duas palavras. Por exemplo, em Isaías 26.3 — “Tu, SENHOR, guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito está firme; porque em ti confia” —, as palavras finais são literalmente: “em ti confiando”, seguidas de “confiai em Iavé”, no v. 4. No hebraico, porém, a palavra final “confiando” é bāṭûaḥ, que se escreve b-ṭ-w-ḥ. O vocábulo inicial “confiai”, no versículo 4, é biṭḥû, que se escreve b-ṭ-ḥ-w. Como aparecem no texto, consoantes sem sinais, temos b-ṭ-w-ḥ b-ṭ-ḥ-w.

Portanto, essas duas palavras são muito semelhantes, quase idênticas na aparência, embora a primeira seja um adjetivo masculino singular, e a segunda, um verbo no imperativo, na forma plural. O rolo 1QIsa traz apenas b-k b-ṭ-ḥ-w, omitindo assim totalmente a palavra anterior, b-ṭ-w-ḥ. Daí resultou que os manuscritos do mar Morto, de Isaías, condensam os versículos 3 e 4 de forma que os lemos assim: “Uma mente apoiada guardarás em paz real [lit., lôm šālôm, ‘paz paz’]; porque em ti […] confiaram [ou uma nova frase: ‘Confiai’] em Iavé para sempre”. O TM traz corretamente: “A mente apoiada tu guardarás em paz real, porque está confiando em ti. Confiai em Iavé”. Devemos acrescentar que a palavra traduzida por “confiai” implica a vocalização biṭḥû. O contexto do 1QIsa poderia implicar uma vocalização diferente, i.e., bāthü, que significa “eles confiaram”.

A LXX traz um único šālôm e um único verbo bāṭḥû, porque traduz a seção inteira (incluindo-se o v. 2) da seguinte maneira: “Abri os portões, deixai entrar um povo que observa a justiça e observa a verdade, arraigando-se à verdade [aparentemente tomando yēṣer (‘mente’) como se fora o particípio nōṣēr (‘observando, guardando’)] e observando a paz. Por ti [v. 4] têm eles esperado [ou ’em ti têm eles confiado’], ó SENHOR [palavra que com regularidade substitui Iavé] para sempre [‘adê-‘ad, lit., ‘pelas eras’, sendo essa tradução atestada tanto pelo TM quanto pela redação corrigida de lQIsa]”.

Em outros casos, pode ter havido ocorrência de haplografia, no próprio TM, como talvez no exemplo de Juízes 20.13. É comum o AT referir-se aos homens de Benjamim como benêbinyamîn, mas o texto consonantal traz o nome tribal binyamîn apenas (que também ocorre vez por outra). Porém, a LXX traz a redação normal “filhos de Benjamim” (hoi huioi Beniamin), tanto na versão A como na B (Juízes, na LXX, tem duas versões diferentes, ambas com raízes, ao que tudo indica, no mesmo Vorlage hebraico). É interessante que até os escribas massoréticos acreditavam que a expressão “filhos de” deveria encontrar-se ali, por estarem presentes as vogais de benê (“filhos de”), ainda que não se sentissem livres para incluir as consonantes nas palavras, de modo que se alterasse o texto consonantal que haviam recebido.

Fonte:  Enciclopédia de Temas Bíblicos

Respostas às principais dúvidas, dificuldades e “contradições” da bíblia

Gleason Archer

Editora : Vida – pgs 29-31