Josué realmente conquistou Jericó?

De acordo com a Bíblia, depois de 40 anos de caminhada no deserto do Sinai, Moisés trouxe os israelitas ao rio Jordão. Naquela fronteira separando o povo escolhido de seu lugar escolhido, Moisés subiu e permaneceu no monte Nebo, enquanto Josué, como seu sucessor, guiou o povo através do Jordão até o país de Canaã. Na história escriturística, esta entrada na Terra Prometida é realizada por uma série de conquistas militares nas quais os israelitas capturaram fortificações cananitas. A mais conhecida destas conquistas é a primeira cidade que caiu — Jericó — cujas muralhas, como todo professor de Escola Dominical tem ensinado — “desmoronaram”. Há apenas um geração aproximadamente, este relato da conquista era aceito como histórico por quase todo mundo.

Naqueles dias, o relatório da escavação de Jericó pelos arqueólogos britânicos John e J.B.E. Garstang parecia quase confirmar sem sombra de dúvida a destruição bíblica do que era conhecido como a “Quarta Cidade” em Jericó. Incluído neste relatório estava o que foi reportado como sendo fotografias das mesmas paredes que caíram quando os israelitas tocaram suas trombetas. Estas fotos foram acompanhadas pela declaração de Garstang de que “não há dificuldade agora para entender o tom de fé confiante que soa em cada linha da narrativa bíblica (Js 6)”.

Da confiança à controvérsia

Na década de 1950, todavia, Kathleen Kenyon escavou em Jericó e concluiu que Garstang estava errado. Na verdade, ela anunciou que suas descobertas revelaram que a cidade tinha sido destruída por volta de 1550 a.C., e portanto havia estado por muito tempo desabitada quando Josué entrou em cena. Para completar, uma geração de arqueólogos israelitas cavando em sítios estratégicos mencionados na narrativa da conquista também não acharam vestígio de destruição do tempo de Josué. Uma escola de pensamento predominante nos círculos arqueológicos hoje acredita que os eventos registrados sobre a conquista foram escritos muitos séculos depois de acontecerem os eventos que eles descrevem.

Por esta razão, alguns eruditos alegam que estes relatos não contêm informação histórica acurada, mas somente lembranças de tradições. Como Nadav Naaman, professor de história judaica na Universidade de Tel Aviv explica: “Este enorme hiato explica as muitas discrepâncias entre as histórias da conquista e a evidência arqueológica”. Em círculos acadêmicos modernos, a questão de uma conquista histórica (“As muralhas de Jericó realmente caíram?”) não é mais uma questão de modo algum. Israel Finkelstein, que serve como diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e que tem escavado alguns dos sítios da conquista, diz: “Esta não é uma possibilidade, assunto encerrado!” Finkelstein chega a esta conclusão através de uma análise dos padrões de assentamento nas regiões montanhosas de Israel.

Estes, diz ele, indicam que o “Israel verdadeiro”, não o Israel das histórias bíblicas, emergiu no cenário histórico no oitavo ou nono século a.C. (300-400 anos depois que a Bíblia estabelece estes eventos). Tais conclusões modernas nos alertam para o fato de que muitos problemas ainda permanecem para aqueles cuja missão é confirmar a conquista.

Os problemas para a conquista

Se permitirmos que somente a história da Escola Dominical de Josué e de Jericó formem as nossas noções sobre a conquista, então o assunto parece objetivo e simples. Mas além disso, o tema se desenvolve bastante complicado. Amihai 28. A Esteia de Merneptá, na qual é encontrada a primeira menção de Israel em um texto egípcio, indicando que Israel já estava na terra no século XIII a. C. Mazar, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica, explica o problema conforme os eruditos e arqueólogos o vêem:

A questão toda do êxodo e da conquista do país pelos israelitas continua muito enigmática do ponto de vista arqueológico, apesar do fato de toneladas de papéis e milhares de palavras terem sido escritas sobre este assunto por historiadores e arqueólogos que tentaram por dezenas de anos ilustrar esta relação. O período dos Juízes, a colonização, também é um tema muito difícil. Pesquisas arqueológicas no país olhando somente para a superfície do solo, [isto é, apenas] procurando sítios, descobriram que durante o tempo dos Juízes (séculos XI e XII a.C.) cerca de 250 sítios foram encontrados nas montanhas ao norte e sul de Jerusalém. Este fenômeno de uma nova onda de comunidades nas montanhas pode ser relacionado somente com o surgimento de Israel nesta região. Agora, é claro, podemos nos perguntar: De onde eles vieram? Eles vieram do Egito conforme a Bíblia nos diz ou eles eram pessoas locais que se estabeleceram como muitos eruditos acreditam? Ou será que eles vieram de clãs da Jordânia? Temos um debate a respeito da interpretação dos achados. Mas os achados em si continuam sendo uma importante contribuição para o fenômeno da emergência de Israel durante aquele período.

O debate sobre a interpretação dos achados está entre aqueles que aceitam o relato bíblico e aqueles que confiam num modelo estritamente arqueológico. Esta disputa é sobre quando (uma data anterior ou posterior) e como (o método da conquista) Israel entrou em Canaã.

O problema do “quando ”

A data de 1400 a.C. para a conquista, baseada na cronologia interna da própria Bíblia, já foi assumida pela maioria dos arqueólogos. Foi grandemente abandonada em favor de uma data mais recente seguindo a própria mudança de pensamento do patriarca arqueológico W. E Albright durante suas escavações de Beitin. Albright havia identificado Beitin como a bíblica Betel, e quando descobriu um nível de destruição que podia datar de 1250 a.C., sentiu-se compelido a rever a data da conquista. Sua evidência juntou-se às de outros sítios arqueológicos que pareciam ter sido ocupados pelos invasores israelitas. Todos estes mostravam sinais semelhantes de grande destruição de 1250-1150 a.C.

A quem mais a destruição poderia ter sido atribuída, senão aos israelitas? Todavia, antes de revirmos a cronologia bíblica à luz da arqueologia, temos que examinar as pressuposições que foram feitas a respeito desta evidência. Primeiro, houve muitos outros invasores entrando em Israel durante esta época que poderiam ter sido responsáveis por esta destruição. Em 1230 a.C., o faraó egípcio Merneptá conduziu alguns combates (mencionados especificamente em seu próprio registro — A Esteia de Merneptá), bem como os recém-chegados filisteus, que buscaram agressivamente expandir seu território. Houve também conflitos intertribais que ocorreram em Canaã, e o livro bíblico de Juízes registra ciclos de revoluções em alguns sítios pelos opressores midianitas e cananeus.

Uma outra consideração importante que afeta a questão do “quando” é como interpretar os relatos bíblicos a respeito da extensão da destruição a ser procurada. A Bíblia não sustenta a pressuposição de alguns arqueólogos sobre uma destruição maciça ocorrendo em todos os sítios ocupados. De acordo com o texto bíblico, somente dois sítios ao sul e outro ao norte foram destruídos de maneira a não deixar qualquer evidência de destruição. Incidentalmente, Betel (que Albright pensou que fosse Beitin, forçando sua revisão da cronologia bíblica) não foi um destes. De acordo com a Bíblia muitos sítios nunca foram conquistados pelos israelitas, de modo algum, mas ao fim da vida de Josué “muito da terra continuou para ser conquistado” (Js 13.1). Este é um fato confirmado pela evidência arqueológica. Bob Mullins, um supervisor de área das escavações da camada do período bíblico (Idade do Ferro), apresenta este ponto quando diz:

Em termos de nossas próprias escavações em Bete-Seã, vemos a continuação da presença egípcia de algum ponto próximo a 1450 a.C. até 1150 a.C. Assim, isso empresta peso ao que a Bíblia diz sobre [as cidades de] Bete-Seã e até Megido não terem sido tomadas por Israel. O que vemos em termos de evidência arqueológica é que uma mudança na população de egípcia e cananita para israelita existe em Bete-Seã e Megido [somente] a partir do início da época de Salomão. Nenhum texto bíblico claramente diz quem pôs um fim nas cidades daquele tempo; nós presumimos talvez Davi. Todavia, há evidência circunstancial que parece indicar que Israel ocupou de fato partes da região montanhosa. Sabemos que em Juízes 1.27 os israelitas não conquistaram estas regiões do vale que incluíam tais importantes cidades como Megido e Bete-Seã.6

Consequentemente, os sinais de ampla destruição em certos sítios não deveriam ser considerado como evidência arqueológica contra a cronologia bíblica e a favor de uma data posterior para a conquista. Estas destruições melhor se encaixam no período dos Juízes, durante o qual batalhas em andamento eram algo comum.

O problema do “como”

As escavações de Kenyon em Jericó convenceram-na de que ninguém havia ocupado a cidade depois de 1550 a.C., tornando assim impossível uma conquista tanto na data mais antiga como na posterior. Isso levou muitos eruditos a concluírem que nenhuma conquista havia ocorrido de qualquer modo! Como, então, os israelitas entraram em Canaã e ocuparam tanto da terra? Esta pergunta tem sido mais intensamente investigada por aqueles que mantêm uma visão minimalista da Bíblia. Os eruditos têm proposto modelos revisados da “emergência” israelita retirados das informações arqueológicas ou padrões de povoamento isolados.

Porque as teorias desenvolvidas por estes eruditos revisionistas têm ganhado popularidade e estão minando a historicidade da Bíblia entre seus leitores, vamos pesquisar brevemente estas visões. Uma teoria é conhecida como a teoria da “Infiltração Pacífica”. Baseada amplamente em registros egípcios, ela argumenta que os israelitas gradualmente imigraram para Canaã, infiltrados na população cananita residente, e eventualmente dominou e substituiu-a (concordando assim com o termo bíblico “destruindo”) a cultura cananita. Uma outra teoria é chamada de a teoria da “Revolta dos Camponeses”.

Uma vez que os proponentes desta visão não enxergam evidência de Israel no registro arqueológico, eles revisam radicalmente a história israelita identificando os israelitas como membros do mais baixo nível da população cananita. Num fenômeno social localizado, estes camponeses se revoltaram e destruíram seus senhores urbanos. Ainda outra teoria, conhecida como a “Teoria da Transição,” tem usado as informações arqueológicas da transição entre o final da Idade do Bronze Recente e o começo da Idade do Ferro para argumentar que as mudanças sociais e tecnológicas forçaram a emergência dos israelitas como uma cultura distinta.

Então existe a “Teoria da Imaginação,” que argumenta que aquelas mudanças climáticas na transição entre os períodos arqueológicos fizeram o povo das montanhas (israelitas e filisteus!) emergir numa tentativa de formar comunidades. A despeito de sua dependência sobre a mesma evidência arqueológica, cada teoria interpreta a evidência de maneira diferente, demonstrando que a evidência em si mesma é ambígua. Na análise final, nenhuma destas teorias adequadamente responde como a cultura cananita acabou e Israel conseguiu ganhar a posse de tamanha extensão de terra em Canaã. Finalmente, cada visão tem que dispensar ou reinterpretar as narrativas bíblicas para conseguir encaixar sua revisão da história.

Fonte: Livro: Arqueologia Bíblia

Autor: Randall Price,

Pags: 113-119


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